215 milhões de mensagens por dia ajudam a mostrar que a inteligência artificial já deixou a fase da curiosidade no Brasil. Para empresas, escritórios de advocacia e departamentos jurídicos, o desafio agora é transformar adoção em produtividade, novos modelos de negócio, governança e vantagem competitiva.
Durante algum tempo, a inteligência artificial generativa foi tratada principalmente como novidade tecnológica.
Advogados testavam prompts. Empresas experimentavam ferramentas. Profissionais produziam textos, resumos e imagens.
Havia muita curiosidade e, em diversos casos, pouco planejamento.
Os dados divulgados pela OpenAI em agosto de 2026 mostram um cenário diferente.
Os brasileiros enviam aproximadamente 215 milhões de mensagens por dia ao ChatGPT. O número de usuários da plataforma no país praticamente dobrou em um ano, e o Brasil está entre os três maiores mercados do ChatGPT no mundo. fileciteturn0file0L66-L74
O volume impressiona.
Para quem administra uma empresa ou um escritório de advocacia, porém, existe outro número que considero ainda mais importante: 35% das mensagens classificadas de contas individuais brasileiras estavam relacionadas ao trabalho, enquanto a média global era de 30%. fileciteturn0file0L82-L88
A IA começou a entrar efetivamente na rotina profissional.
E quando uma tecnologia entra no trabalho, ela começa a mexer em gestão, produtividade, custos, funções, competências, riscos e modelo de negócio.
A adoção já atingiu escala
Os números brasileiros revelam algo que muitas organizações talvez ainda não tenham percebido internamente: o uso da inteligência artificial já ganhou escala.
O país está entre os três maiores mercados do ChatGPT no mundo, possui a maior penetração de uso do ChatGPT Images e aparece entre os cinco principais mercados na utilização de recursos de voz e ditado.
O português, segundo o levantamento, é o terceiro idioma mais utilizado globalmente na plataforma.
Isso importa porque tecnologias com grande adoção individual normalmente acabam chegando às organizações antes mesmo da existência de uma política formal.
O profissional conhece a ferramenta em casa, utiliza no celular, testa em uma atividade pessoal e, algum tempo depois, começa a utilizá-la no trabalho.
A entrada da IA nas organizações muitas vezes acontece exatamente assim.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
Quando uma tecnologia atinge esse nível de utilização, o custo de simplesmente ignorá-la começa a crescer. O gestor precisa tratar a IA como infraestrutura de trabalho, assim como passou a tratar internet, nuvem, sistemas de gestão e ferramentas colaborativas.
A discussão deixa de ser “vamos utilizar IA?” e passa a ser “onde faz sentido utilizar, com qual controle e com qual objetivo?”.
O uso profissional já é relevante
Em junho de 2026, 35% das mensagens classificadas de usuários individuais do ChatGPT no Brasil estavam relacionadas ao trabalho.
Mais interessante ainda é perceber como essas pessoas estão utilizando a ferramenta.
Entre as mensagens profissionais, 53% envolviam solicitar ao ChatGPT que concluísse uma tarefa ou produzisse algum resultado.
Na prática, isso pode significar redigir uma proposta, revisar uma apresentação, analisar informações, produzir código ou criar material de marketing. fileciteturn0file0L82-L96
Esse dado representa uma mudança importante.
O usuário começa perguntando.
Depois começa executando.
Na advocacia, essa transição já pode ser observada em várias atividades: estruturação inicial de peças, análise documental, organização de informações processuais, preparação de reuniões, comparação de cláusulas contratuais, elaboração de relatórios, organização de pesquisas e apoio na construção de argumentos.
Isso não significa entregar a decisão profissional para uma máquina.
Significa utilizar tecnologia para reduzir o esforço necessário em determinadas etapas do trabalho.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
O ganho real aparece quando a IA sai do uso pontual e entra no processo. Se cada profissional economiza vinte minutos em uma atividade repetitiva, pode parecer pouco.
Agora multiplique isso por dezenas de atividades, dezenas de pessoas e centenas de dias de trabalho. A conta muda completamente.
O papel do gestor é identificar onde esse ganho existe, medir o impacto e redesenhar o processo.
Escrever continua sendo uma das principais aplicações
Entre as mensagens profissionais analisadas no Brasil, 39% estavam relacionadas à escrita, 22% à orientação prática e 16% à multimídia.
Para o mercado jurídico, esse resultado faz bastante sentido.
Grande parte do trabalho jurídico envolve linguagem.
Petição. Contrato. Parecer. Relatório. Comunicação com cliente. E mail. Apresentação. Pesquisa. Organização de argumentos.
A inteligência artificial generativa atua exatamente nesse território.
O erro seria imaginar que isso transforma a ferramenta em um advogado automático.
Não transforma.
Um texto juridicamente bem escrito ainda depende de contexto, estratégia, interpretação, fatos, jurisprudência, conhecimento do cliente e responsabilidade profissional.
O que muda é a forma de produzir a primeira versão, organizar informações, revisar documentos e acelerar tarefas que antes consumiam tempo significativo.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
Escritórios precisam separar duas coisas que frequentemente aparecem misturadas: produção de texto e raciocínio jurídico.
A IA consegue ajudar muito na primeira. Na segunda, pode apoiar, mas exige conhecimento, validação e responsabilidade humana.
Escritórios que entenderem essa diferença conseguirão aumentar produtividade sem transformar velocidade em risco.
Criatividade também virou ferramenta de trabalho
O Brasil também aparece acima da média global no uso de recursos multimídia.
Em junho de 2026, 12% das mensagens classificadas de contas individuais brasileiras envolviam multimídia, contra 8% globalmente.
O relatório menciona inclusive o uso dessas ferramentas por pequenos negócios para produzir fotos de produtos, cardápios, anúncios e outros materiais.
No mercado jurídico, essa possibilidade costuma receber menos atenção, mas deveria entrar na pauta.
Apresentações para clientes, materiais educativos, treinamentos internos, conteúdo institucional, visualização de dados e comunicação jurídica podem ser produzidos com muito mais agilidade.
Isso afeta marketing, relacionamento, experiência do cliente e comunicação interna.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
Criatividade aplicada ao negócio também gera resultado.
Um escritório não precisa transformar todo advogado em designer, editor ou especialista em marketing. A tecnologia permite que boas ideias sejam transformadas em materiais melhores com muito menos esforço.
O cuidado está em manter identidade, qualidade, ética e coerência institucional.
O Brasil possui um ecossistema de desenvolvimento relevante
Outro dado chama bastante atenção.
O Brasil ocupa o segundo lugar no mundo em número de desenvolvedores que utilizam a API da OpenAI.
O país também é apresentado como o maior mercado do Codex na América Latina.
Desde o início de 2026, o número de usuários semanais da ferramenta no Brasil cresceu mais de onze vezes, enquanto as interações diárias aumentaram quase trinta vezes. fileciteturn0file0L114-L121
Esse ponto é especialmente importante para a advocacia.
A próxima fase da IA jurídica tende a depender menos de abrir um chatbot e digitar uma pergunta.
O caminho aponta para integração.
IA conectada ao software jurídico, ao GED, à base de conhecimento, à controladoria, ao CRM, ao sistema de contratos, ao atendimento, aos indicadores gerenciais e aos fluxos internos.
Quando isso acontece, a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta individual e passa a integrar a infraestrutura operacional da organização.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
Acredito que uma das maiores oportunidades para o mercado jurídico está justamente na integração.
O escritório que conectar IA aos seus processos, dados e sistemas poderá construir algo muito mais difícil de copiar do que um bom prompt.
Prompt pode ser replicado. Processo, conhecimento institucional, dados organizados e integração formam uma vantagem muito mais consistente.
Empresas estão formalizando a adoção
O relatório informa que o número de licenças corporativas da OpenAI no Brasil cresceu cinco vezes em relação ao ano anterior.
O país já aparece entre os dez maiores mercados de utilização da OpenAI por empresas locais.
Esse movimento representa outra fase da transformação.
Quando a IA é individual, a pergunta costuma ser:
“Como eu posso usar?”
Quando a adoção se torna empresarial, surgem questões diferentes.
Em quais processos utilizar? Quais ferramentas serão autorizadas? Quem poderá acessar? Quais informações podem ser inseridas? Como tratar dados confidenciais? Como revisar resultados? Como medir produtividade? Como capacitar a equipe? Quem responde pela governança?
A tecnologia pode continuar a mesma.
A complexidade administrativa muda completamente.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
Comprar licenças é a parte simples. O trabalho difícil começa depois.
Sem processo, treinamento e governança, uma organização pode ter dezenas de ferramentas e continuar operando praticamente da mesma maneira.
Transformação digital nunca foi uma questão de licença. Com IA não será diferente.
Existe uma produtividade invisível acontecendo dentro das organizações
Um detalhe metodológico do relatório merece atenção especial.
Os percentuais relacionados ao trabalho consideram contas individuais do ChatGPT e não incluem produtos Enterprise e Education gerenciados por organizações.
Isso permite uma reflexão importante.
Parte do uso profissional da inteligência artificial provavelmente acontece fora dos ambientes oficialmente controlados pelas empresas.
O profissional recebe um documento e pede um resumo.
Precisa responder uma mensagem e consulta uma ferramenta.
Vai preparar uma reunião e utiliza IA para organizar informações.
Quer revisar um contrato e faz um teste.
A tecnologia muitas vezes entra pela necessidade antes de entrar pela governança.
É o que podemos chamar de IA invisível.
Ela pode gerar produtividade.
Também pode produzir risco.
Informações confidenciais podem ser utilizadas de forma inadequada. Dados pessoais podem circular sem avaliação. Resultados incorretos podem ser considerados verdadeiros. Documentos podem ser elaborados sem validação.
Por isso, simplesmente proibir dificilmente será uma estratégia suficiente.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
Se a empresa não cria uma política para IA, isso não significa que ninguém esteja utilizando IA.
Pode significar apenas que a gestão não sabe como ela está sendo utilizada.
Governança começa conhecendo o comportamento real da organização.
O impacto econômico pode ser enorme, mas exige cautela
O relatório cita estudo do RegLab que estima que a inteligência artificial poderá acrescentar quase R$ 1 trilhão à economia brasileira até 2030.
Segundo o documento, esse valor equivale a aproximadamente 7,6% do PIB brasileiro projetado para 2026.
É um número expressivo.
Também precisa ser interpretado corretamente.
O estudo foi financiado pela própria OpenAI, conforme informação apresentada no relatório.
Isso não elimina sua relevância, mas recomenda cautela na leitura das projeções.
O impacto econômico da IA dificilmente aparecerá como um único evento.
Ele tende a ser distribuído entre produtividade, redução de tempo de execução, criação de serviços, novas empresas, automação parcial, redução de custos, maior capacidade de atendimento e produtos que antes não existiam.
O verdadeiro impacto econômico será a soma dessas pequenas e grandes transformações.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
Eu prefiro olhar menos para o número de R$ 1 trilhão e mais para a pergunta que existe atrás dele: quanto da produtividade potencial da IA cada empresa conseguirá capturar?
Algumas organizações vão utilizar a tecnologia para fazer exatamente o que já faziam, apenas um pouco mais rápido. Outras vão redesenhar serviços, processos e modelos de negócio.
É nessa segunda categoria que provavelmente estará a maior criação de valor.
E o modelo de negócio dos escritórios?
Aqui existe uma discussão econômica que o mercado jurídico ainda precisa aprofundar.
A advocacia tradicionalmente comercializa uma combinação de conhecimento, experiência e tempo profissional.
A IA pressiona especialmente a última variável.
Imagine uma atividade que antes exigia três horas e passa a ser executada em quarenta minutos com qualidade equivalente ou superior.
É ótimo para produtividade.
Mas alguma coisa acontece com a economia dessa atividade.
Pode mudar a margem, o preço, o volume atendido, a composição da equipe, a expectativa do cliente e até o modelo de cobrança.
Escritórios que trabalham com preço fixo ou contratos recorrentes podem capturar determinados ganhos de produtividade mais rapidamente.
Já organizações fortemente dependentes de faturamento por hora precisarão analisar essa transformação com atenção.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
Produtividade sem revisão do modelo econômico pode produzir uma situação curiosa.
O escritório melhora tecnologicamente, trabalha mais rápido e, dependendo da forma de cobrança, reduz exatamente aquilo que costuma faturar: horas.
A gestão precisa acompanhar a inovação tecnológica com inovação comercial.
A advocacia precisa tratar IA como assunto de gestão
Talvez este seja o ponto que considero mais importante.
Muitos escritórios ainda colocam inteligência artificial dentro de uma única caixa chamada tecnologia.
É pouco.
IA envolve tecnologia, claro.
Mas envolve também gestão, processos, pessoas, estratégia, privacidade, LGPD, segurança, conhecimento, treinamento, modelo econômico, relacionamento com clientes e governança.
O próprio relatório destaca que as organizações precisam desenvolver processos claros para avaliar resultados, proteger informações confidenciais e integrar a inteligência artificial de maneira responsável ao trabalho.
Para escritórios de advocacia e departamentos jurídicos, essa preocupação é ainda mais relevante.
Estamos lidando com informações de clientes, estratégias processuais, contratos, documentos internos, dados pessoais, informações empresariais e conteúdo protegido por deveres profissionais de confidencialidade.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
Política interna de inteligência artificial tende a se tornar tão importante quanto a própria ferramenta utilizada.
Quem pode usar, para quê, com quais dados, utilizando quais plataformas e com qual nível de revisão são perguntas que precisam sair da conversa informal e entrar definitivamente na gestão.
IA não elimina o profissional, mas muda o valor do trabalho
Os dados apresentados não permitem afirmar que a inteligência artificial eliminará determinada profissão.
Eles mostram algo diferente.
Pessoas estão incorporando IA ao trabalho em escala crescente.
Isso naturalmente muda a distribuição de valor entre atividades profissionais.
Tarefas repetitivas podem exigir menos tempo. Produção inicial de textos pode ser acelerada. Pesquisa pode ganhar novas interfaces. Organização de informações pode ser parcialmente automatizada.
Outras competências passam a ter ainda mais importância: leitura crítica, estratégia, negociação, relacionamento, conhecimento do cliente, compreensão do negócio, julgamento profissional, validação, capacidade de fazer boas perguntas e gestão.
Quem conhece apenas a tarefa operacional tende a sentir mais pressão.
Quem compreende o problema completo e utiliza tecnologia para resolvê lo amplia sua capacidade de atuação.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
Gosto de pensar que a IA valoriza quem entende o processo inteiro.
Saber produzir uma peça é importante. Entender por que aquela peça existe, qual estratégia ela atende, quais informações precisa conter, quais riscos estão envolvidos e qual impacto terá para o cliente é ainda mais importante.
O desafio agora é transformar adoção em resultado
O relatório da OpenAI mostra um Brasil fortemente receptivo à inteligência artificial.
São aproximadamente 215 milhões de mensagens diárias.
Um dos três maiores mercados do ChatGPT.
Uso profissional acima da média global.
Alta utilização de multimídia.
Segundo maior ecossistema de desenvolvedores utilizando a API da OpenAI.
Crescimento expressivo de ferramentas de programação.
Expansão das licenças corporativas.
Tudo isso merece atenção.
Mas existe uma distância considerável entre utilizar inteligência artificial e gerar valor com inteligência artificial.
Nos escritórios de advocacia, departamentos jurídicos e empresas, essa distância costuma ser preenchida por alguns elementos muito conhecidos da boa gestão: processos claros, ferramentas adequadas, pessoas capacitadas, dados organizados e governança.
Sem isso, a IA pode produzir textos interessantes.
Com isso, pode produzir transformação operacional.
Estamos entrando em uma fase na qual simplesmente dizer que uma organização utiliza inteligência artificial começa a significar muito pouco.
A pergunta realmente interessante será:
O que essa organização passou a fazer melhor depois da inteligência artificial?
Atende mais rápido?
Reduziu retrabalho?
Melhorou a qualidade?
Criou novos serviços?
Tomou decisões melhores?
Aumentou margem?
Conhece melhor seus clientes?
Protege melhor seus dados?
Liberou profissionais para atividades de maior valor?
É aí que começa a conversa empresarial.
E é exatamente aí que a inteligência artificial encontra gestão, economia, negócios e advocacia.
Visão de gestor, Gustavo Rocha
O futuro já começou.
Agora precisamos administrá lo.
Fonte
OpenAI. Brasil: da adoção da IA ao impacto econômico. Agosto de 2026.
O documento utiliza dados agregados da OpenAI e informações do OpenAI Signals. A projeção de impacto econômico citada decorre de estudo do RegLab financiado pela própria OpenAI, circunstância que deve ser considerada na interpretação dos resultados.
Gustavo Rocha
Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico. Especialista em inteligência artificial, inovação, LGPD, Legal Ops e estratégia aplicada ao mercado jurídico.
#ForteAbraço