O golpe do falso advogado ficou mais sofisticado: a dica de um delegado que todo escritório deveria repassar aos clientes

Recebi recentemente de um delegado um material que circula em ambientes criminosos ensinando, passo a passo, como aplicar o chamado golpe do falso advogado.

Não vou reproduzir aqui o manual, os nomes das ferramentas, os grupos ou os procedimentos técnicos apresentados. Isso seria irresponsável.

Mas vale explicar a lógica do golpe.

E, principalmente, vale entender uma coisa que me chamou muita atenção ao ler o material: o criminoso não depende mais apenas de uma boa conversa no WhatsApp. Ele pode utilizar dados reais do processo, inteligência artificial, engenharia social, compartilhamento de tela e aplicativos maliciosos para construir uma fraude extremamente convincente.

Isso muda bastante a forma como os escritórios precisam orientar seus clientes.

A velha recomendação de “desconfie de mensagens estranhas” já ficou pequena.

O problema agora é justamente este:

a mensagem pode não parecer estranha.

Pode conter o nome correto do advogado.

O número correto do processo.

O assunto correto.

Dados verdadeiros sobre a ação.

Pode utilizar a fotografia do profissional.

Pode mencionar acontecimentos que realmente ocorreram no processo.

E ainda assim ser um golpe.

Esse é o ponto que precisamos ensinar aos clientes.

Primeiro o criminoso conhece o processo

Um dos aspectos mais preocupantes do material que recebi é a demonstração clara de que o golpe começa com informação.

O criminoso procura processos judiciais e coleta dados suficientes para compreender quem são as partes e qual é o contexto da ação.

A OAB Nacional já vem alertando para esse comportamento. Segundo a entidade, criminosos utilizam nomes, fotografias e até informações retiradas de processos judiciais para entrar em contato com vítimas, normalmente por aplicativos de mensagens. OAB

Isso significa que precisamos abandonar uma ideia muito perigosa:

“Ele sabia tudo sobre meu processo, então só poderia ser meu advogado.”

Não.

Esse raciocínio já não funciona.

A primeira orientação que eu passaria para qualquer cliente hoje seria esta:

Conhecer informações verdadeiras sobre o seu processo não comprova a identidade de quem está falando com você.

Essa frase deveria estar no contrato de honorários, no manual de boas vindas do cliente, no WhatsApp do escritório e, dependendo da área de atuação, ser lembrada periodicamente.

Depois entra a inteligência artificial

Outro detalhe do material que recebi me chamou muita atenção por uma razão óbvia.

A inteligência artificial aparece dentro da lógica da fraude.

O criminoso pode utilizar sistemas de IA para interpretar informações processuais e construir mensagens mais convincentes para a vítima.

Isso merece reflexão.

Falamos bastante sobre IA ajudando advogados a analisar processos, resumir documentos, pesquisar e organizar informações.

As mesmas capacidades podem ser exploradas por criminosos.

A tecnologia não conhece a intenção moral de quem digitou o comando.

Uma IA capaz de compreender um processo para ajudar um advogado também pode ser utilizada indevidamente por alguém tentando compreender aquele processo para enganar uma vítima.

É mais uma razão para insistirmos numa ideia que tenho defendido há bastante tempo:

tecnologia precisa de governança.

E segurança digital precisa fazer parte dessa governança.

O golpe começa criando confiança

Imagine a situação pelo ponto de vista do cliente.

Ele recebe uma mensagem.

A fotografia é do advogado.

O nome está correto.

O criminoso sabe que existe um processo.

Sabe contra quem.

Sabe talvez até o assunto discutido.

Pode mencionar um suposto resultado favorável.

Para uma pessoa que espera há meses ou anos por uma decisão, aquilo parece plausível.

A partir daí começa a engenharia social.

O objetivo é criar rapidamente uma mistura de confiança, expectativa e urgência.

“Seu dinheiro foi liberado.”

“Precisamos finalizar um procedimento.”

“Faça isso agora para não perder o prazo.”

É nesse momento que o cliente deixa de analisar friamente a situação.

A fraude funciona muito mais pela psicologia do que pela tecnologia.

A tecnologia torna a história convincente.

A engenharia social faz a pessoa agir.

Uma ligação pode tornar tudo ainda mais convincente

O material também descreve uma tentativa de levar a vítima da conversa escrita para uma interação mais próxima, inclusive com compartilhamento da tela do celular.

Esse ponto precisa virar orientação expressa dos escritórios:

o cliente nunca deve compartilhar a tela do celular, acesso bancário, senha, código de autenticação ou informações financeiras porque alguém que se apresenta como advogado pediu.

Mesmo que a conversa pareça legítima.

Mesmo que a pessoa saiba detalhes do processo.

Mesmo que esteja utilizando a foto verdadeira do advogado.

Compartilhar a tela pode revelar notificações, saldos, aplicativos instalados, códigos temporários e outras informações sensíveis.

Advogado não precisa assistir o cliente operar sua conta bancária para liberar um processo.

Se aparecer esse pedido, a conversa deve parar.

O aplicativo enviado pelo WhatsApp merece atenção máxima

Outra etapa descrita no material envolve convencer a vítima a instalar um aplicativo aparentemente relacionado à solução do problema.

Aqui existe uma regra extremamente simples que pode ser comunicada ao cliente:

não instale aplicativo enviado por WhatsApp em nome do escritório.

Se for necessário utilizar Meu INSS, aplicativo de banco, Gov.br ou qualquer outra plataforma, o cliente deve acessar a loja oficial do próprio aparelho ou o endereço oficial do serviço.

O escritório não deveria enviar arquivos executáveis ou aplicativos improvisados para o celular do cliente.

A lógica da fraude é transformar um contato aparentemente jurídico em acesso tecnológico ao dispositivo.

A partir daí o problema deixa de ser apenas o golpe do falso advogado.

Passa a envolver comprometimento do próprio aparelho.

E então aparece o banco

Outra parte especialmente perigosa do roteiro criminoso é a tentativa de levar a vítima para dentro do aplicativo bancário.

É preciso ensinar uma regra muito clara:

se alguém que diz ser seu advogado pede que você abra o aplicativo do banco, interrompa o contato.

O advogado pode informar valores.

Pode prestar contas.

Pode encaminhar dados bancários legítimos.

Pode orientar juridicamente sobre um pagamento.

Mas ele não precisa acompanhar uma operação dentro da conta bancária do cliente para verificar se um valor judicial será recebido.

Isso precisa virar cultura.

O detalhe que mais me preocupa: pequenas ações podem parecer inofensivas

A engenharia social frequentemente não começa pedindo tudo.

Começa com algo pequeno.

Uma confirmação.

Um teste.

Um código.

Uma instalação.

Uma autorização.

Uma visualização da tela.

Isso reduz a resistência da vítima.

Quando ela percebe, já forneceu informações suficientes para que o criminoso avance.

Por isso, não deveríamos orientar nossos clientes apenas sobre “não fazer Pix para desconhecidos”.

Precisamos ensinar comportamento digital.

Dez orientações que todo escritório poderia enviar aos clientes

Eu prepararia algo simples e objetivo, talvez inclusive em uma imagem para WhatsApp:

1. Salve o número oficial do escritório nos seus contatos.

Não espere o processo terminar para descobrir qual é o telefone verdadeiro.

2. Desconfie de qualquer novo número.

Mesmo que tenha a foto e o nome correto do advogado.

3. Informação verdadeira sobre o processo não comprova identidade.

Criminosos podem ter acesso a informações públicas ou obtidas de outras formas.

4. Antes de fazer qualquer pagamento extraordinário, ligue para o escritório pelo número que você já conhece.

Não confirme utilizando o mesmo número que acabou de mandar a mensagem.

5. Nunca compartilhe a tela do celular com alguém que entrou em contato dizendo representar o escritório.

Principalmente durante acesso a bancos ou aplicativos governamentais.

6. Nunca forneça senha bancária, código de autenticação ou token.

O escritório não precisa desses dados.

7. Não instale aplicativos recebidos por WhatsApp.

Utilize somente lojas oficiais e sites oficiais.

8. Desconfie de urgência associada a dinheiro.

“Precisa pagar agora para liberar o valor” é um forte sinal de alerta.

9. Confira o favorecido antes de realizar qualquer Pix.

O nome deve corresponder exatamente ao destinatário previamente informado pelo escritório.

10. Na dúvida, não faça nada.

Pare a conversa e entre em contato com o escritório pelo canal oficial.

A OAB também recomenda confirmar a identidade do profissional pelos contatos já conhecidos ou previamente informados no contrato, evitar pagamentos solicitados por mensagem sem checagem e guardar evidências do contato suspeito para eventual registro policial. OAB

E tem mais uma dica: crie uma palavra ou procedimento de segurança

Aqui entramos em gestão.

Um escritório que lida com grande volume de clientes poderia estabelecer um procedimento simples para situações financeiras sensíveis.

Por exemplo:

Toda comunicação sobre recebimento de valores acima de determinado limite será confirmada por ligação realizada a partir do telefone oficial.

Ou:

Toda alteração de dados bancários será comunicada por dois canais diferentes.

Ou ainda:

O escritório nunca altera uma chave Pix exclusivamente por WhatsApp.

O mecanismo concreto pode variar.

O que não pode variar é a existência de um processo.

Segurança baseada na memória das pessoas funciona até o dia em que alguém esquece.

Segurança baseada em procedimento é muito mais consistente.

O contrato de honorários deveria participar dessa proteção

Recentemente publiquei aqui no site um artigo sobre a atualização dos contratos de honorários diante da Lei nº 15.472/2026, do golpe do falso advogado e do uso de inteligência artificial.

Minha sugestão naquele texto foi justamente utilizar o contrato para registrar:

canais oficiais;

telefone;

WhatsApp;

e mail;

site;

chave Pix;

titular da conta;

procedimento para alteração de dados bancários;

orientações sobre fraude;

uso responsável de inteligência artificial.

Volto ao ponto porque o material que recebi do delegado reforçou ainda mais essa ideia.

O contrato de honorários também pode ser um instrumento de segurança digital.

Quando o cliente assina um documento contendo o telefone oficial, a conta oficial e um alerta dizendo que o escritório jamais pedirá senha bancária ou compartilhamento da tela do celular, você criou uma camada adicional de prevenção.

Não resolve sozinho.

Mas ajuda.

E principalmente ajuda a criar cultura de segurança desde o começo da relação.

Eu acrescentaria agora uma cláusula ainda mais específica

Depois de conhecer esse tipo de abordagem criminosa, eu ampliaria a cláusula antifraude que sugeri no artigo anterior.

Algo semelhante a isto:

Cláusula de prevenção a fraudes e segurança digital

O CONTRATANTE declara ter sido informado sobre a existência de fraudes praticadas por terceiros que se apresentam indevidamente como advogados, integrantes do escritório ou representantes vinculados ao processo.

O CONTRATANTE está ciente de que criminosos podem utilizar nomes, fotografias, logotipos, números de processos e outras informações verdadeiras para tornar o contato aparentemente legítimo.

O CONTRATADO não solicitará ao CONTRATANTE, por meio de aplicativo de mensagens ou ligação inesperada:

a) senha de banco;

b) token ou código de autenticação;

c) acesso remoto ao dispositivo;

d) compartilhamento da tela durante operações bancárias;

e) instalação de aplicativo enviado diretamente pelo escritório para suposta liberação de valores;

f) transferência financeira para conta de terceiro não previamente identificada.

Qualquer comunicação envolvendo pagamento extraordinário, alteração de dados bancários ou suposta liberação de valores deverá ser confirmada diretamente pelo CONTRATANTE utilizando os canais oficiais previstos neste contrato.

O conhecimento, pelo interlocutor, de informações verdadeiras sobre o processo não deverá ser considerado prova suficiente de sua identidade.

Em caso de dúvida, o CONTRATANTE deverá interromper imediatamente a operação e entrar em contato com o escritório utilizando os canais oficiais cadastrados.

Eu gosto dessa redação porque transforma segurança em comportamento esperado.

Treinar cliente também passou a fazer parte da gestão de risco do escritório

Talvez exista alguma resistência à ideia.

“Mas eu sou advogado, não profissional de segurança digital.”

É verdade.

O advogado não precisa se transformar em especialista em cibersegurança.

Mas existe uma relação profissional sendo utilizada como matéria prima para o golpe.

Nome do advogado.

Marca do escritório.

Processo do cliente.

Expectativa de recebimento.

Confiança construída durante anos.

É natural, portanto, que o escritório participe da prevenção.

E aqui uma pequena ação pode gerar um resultado enorme.

Uma mensagem enviada na contratação.

Um aviso junto ao contrato.

Um card trimestral no WhatsApp.

Um alerta quando o processo entra em fase de pagamento.

Uma ligação quando há expedição de alvará.

Tudo isso pode fazer parte do fluxo.

A prevenção deveria aumentar exatamente quando existe dinheiro a receber

Esse detalhe é muito relevante.

Quando uma ação está próxima de gerar pagamento, o risco psicológico aumenta.

O cliente está esperando dinheiro.

Uma mensagem dizendo que “o valor foi liberado” encontra uma pessoa predisposta a acreditar.

Portanto, faria sentido criar um gatilho dentro do próprio software jurídico:

Processo entrou em fase de pagamento?

Enviar automaticamente uma comunicação de segurança.

Por exemplo:

“Seu processo entrou em uma etapa que poderá envolver movimentação financeira. Reforçamos que nosso escritório utiliza somente os números X e Y. Nunca pediremos sua senha bancária, compartilhamento da tela ou instalação de aplicativos enviados por WhatsApp. Antes de qualquer pagamento, fale conosco pelo telefone oficial.”

Isso é tecnologia aplicada à segurança.

Automação usada para proteger o cliente.

E gestão jurídica trabalhando antes do problema.

A inteligência artificial também pode ajudar na defesa

Já que a IA aparece na lógica do criminoso, podemos também colocá la do lado da proteção.

O escritório pode usar inteligência artificial para revisar mensagens de orientação ao cliente.

Pode analisar seus contratos procurando lacunas de segurança.

Pode ajudar a transformar políticas internas complexas em orientações simples.

Pode criar checklists.

Pode revisar procedimentos.

Pode auxiliar na produção de conteúdos educativos.

Pode até simular, em ambiente controlado, situações de engenharia social para treinamento da equipe, desde que isso seja feito com cuidado, finalidade legítima e sem produzir material operacional para fraude.

A ferramenta é a mesma.

A diferença está em como utilizamos.

Um texto pronto para o advogado mandar ao cliente

Eu deixaria algo assim salvo no próprio sistema do escritório:

ALERTA IMPORTANTE DE SEGURANÇA

Criminosos estão se passando por advogados e escritórios para solicitar pagamentos ou obter acesso a informações bancárias.

Nosso escritório orienta:

Nunca faça pagamento extraordinário sem confirmar conosco pelo número oficial.

Nunca envie senha bancária, token ou código de autenticação.

Nunca compartilhe a tela do celular durante acesso ao banco.

Nunca instale aplicativo recebido por WhatsApp para “liberar” valores do processo.

Desconfie de mensagens dizendo que existe dinheiro disponível mediante pagamento urgente.

Mesmo que a pessoa conheça seu nome, o número do processo ou outras informações verdadeiras, confirme sua identidade conosco.

Nosso número oficial é: [NÚMERO]

Nosso e mail oficial é: [EMAIL]

Nossa chave Pix oficial é: [CHAVE]

Na dúvida, pare a operação e fale conosco.

Simples.

Direto.

Compreensível.

Esse é o tipo de texto que eu gostaria que minha família recebesse se estivesse esperando dinheiro de uma ação judicial.

Se o golpe acontecer, preserve as provas

Outra orientação da OAB merece ser reforçada.

Se o cliente perceber que está diante de um golpe, deve preservar as evidências.

Prints das conversas.

Número utilizado.

Comprovantes.

Dados do favorecido.

Links recebidos.

Horários.

Tudo isso pode ser relevante para registro da ocorrência e investigação. A própria OAB recomenda guardar conversas e comprovantes e levá los à autoridade policial. OAB

E a repressão está acontecendo.

Em julho de 2026, por exemplo, uma operação apoiada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública investigou grupo ligado ao golpe do falso advogado com prejuízo superior a R$ 1 milhão no Pará. Serviços e Informações do Brasil

Não estamos falando de uma hipótese teórica.

É crime organizado utilizando a confiança existente entre advogado e cliente.

Uma conclusão que ficou ainda mais clara para mim

Depois de ler o material recebido do delegado, fiquei com uma sensação bastante objetiva.

O golpe do falso advogado evoluiu.

A nossa comunicação com o cliente também precisa evoluir.

Já não basta dizer “cuidado com o Pix”.

Precisamos ensinar que informação processual pode ser verdadeira e o interlocutor falso.

Precisamos explicar que fotografia não autentica ninguém.

Precisamos falar de compartilhamento de tela.

De aplicativos enviados por mensagem.

De senhas.

De códigos.

De alteração de conta.

E precisamos fazer isso antes do golpe acontecer.

Existe também uma lição interessante sobre tecnologia.

A mesma inteligência artificial que ajuda um escritório a compreender um processo pode ser utilizada por criminosos para tornar uma fraude mais convincente.

Isso não torna a IA boa ou ruim.

Mostra apenas que tecnologia sem gestão é ferramenta disponível para quem souber utilizá la.

Na advocacia, nossa resposta precisa ser gestão, educação, segurança e processo.

Proteja seus dados. Proteja seus clientes. Proteja também a confiança que existe entre advogado e cliente.

Essa confiança é justamente aquilo que o criminoso está tentando roubar.

#ForteAbraço

Gustavo Rocha
Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico. Especialista em inteligência artificial, inovação, LGPD, Legal Ops e estratégia aplicada ao mercado jurídico.
www.gustavorocha.com
www.gustavorocha.ia.br

Fontes consultadas

Conselho Federal da OAB, campanha nacional de combate ao golpe do falso advogado e ConfirmADV, 29 de abril de 2025. OAB

Conselho Federal da OAB, ações institucionais para enfrentamento ao golpe do falso advogado, janeiro de 2026. OAB

Ministério da Justiça e Segurança Pública, Operação Data Venia, julho de 2026. Serviços e Informações do Brasil

Referência complementar no GustavoRocha.com

Artigo anterior publicado no site sobre a atualização dos contratos de honorários diante da Lei nº 15.472/2026, prevenção ao golpe do falso advogado e uso de inteligência artificial sob gestão, supervisão e curadoria profissional.

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