Tem uma ação judicial nos Estados Unidos que, na superfície, parece ser sobre um usuário insatisfeito com o plano de assinatura de um software. Mas se você cuida da operação de um escritório de advocacia, o que esse processo expõe é bem mais amplo: a ausência de governança na contratação de IA é um problema que já está dentro da maioria dos escritórios brasileiros, silencioso, sem painel de controle e acumulando risco.
O caso em trinta segundos
Em 14 de junho de 2026, Karl Kahn entrou com uma ação coletiva contra a Anthropic na Justiça Federal da Califórnia. A acusação central: os planos Claude Max 5x (US$ 100/mês) e Max 20x (US$ 200/mês) entregam muito menos uso do que o nome sugere. O plano “20x” entregaria na prática de seis a oito vezes o uso do plano básico. O “5x” entregaria cerca de 3,5 vezes.
A Anthropic divulgou os números em julho de 2025: o plano Pro (US$ 20/mês) tem de 40 a 80 horas de uso semanal do modelo principal. O Max 20x tem de 240 a 480 horas. A divisão simples diz que 480 dividido por 80 é seis, não vinte.
A ação segue em andamento. A Anthropic não comentou.
Por que isso é uma questão de gestão, não só de direito
A maioria das pessoas que leu a notícia pensou: “problema do usuário americano, processo nos EUA, não me afeta.”
Mas o que está em julgamento ali não é só se a Anthropic enganou o Karl Kahn. O que está exposto é um modelo de contratação de IA que praticamente todos os escritórios brasileiros usam hoje da mesma forma: alguém da equipe cadastra um cartão de crédito pessoal num plano de consumidor, sem contrato formalizado, sem análise técnica, sem entender como o limite de uso funciona, e a organização começa a depender da ferramenta como se fosse um serviço corporativo.
Isso não é gestão. É improviso com cartão corporativo.
O problema que ninguém estava vendo: o “pool” compartilhado
Aqui está uma informação técnica que poucos gestores conhecem e que explica boa parte das reclamações de usuários avançados do Claude.
O uso nos planos de consumidor é contabilizado em um “pool” único compartilhado entre todas as superfícies da plataforma: o Claude.ai (interface web), o Claude Code (ferramenta para desenvolvimento de software) e o Cowork (automação de tarefas). Isso significa que se alguém da equipe técnica estiver rodando o Claude Code intensamente pela manhã, os limites dos usuários que tentarem usar o Claude.ai à tarde já estarão parcialmente consumidos.
Além disso, o consumo não é por tempo de uso, mas por volume de tokens. Uma conversa curta com um documento jurídico de cem páginas pode consumir mais do que duas horas de uso simples. O modelo escolhido também importa: o Opus consome tokens muito mais rápido que o Sonnet.
Resultado: em um escritório de médio porte onde várias pessoas compartilham planos ou onde uma pessoa usa o mesmo plano para múltiplas funções, o limite real disponível por pessoa por dia pode ser bem diferente do que o plano anuncia.
Kahn descreve exatamente isso na petição: em uma única sessão de cinco horas rodando o Claude no limite, ele consumiu 15% da cota semanal inteira do plano de US$ 200.
Três perguntas que toda contratação de IA deveria responder
Quando um escritório me chama para avaliar contratos de tecnologia ou organizar o uso de ferramentas de IA, eu costumo começar com três perguntas que parecem simples mas raramente têm resposta pronta.
Quantas pessoas vão usar a ferramenta e com qual intensidade?
Isso parece óbvio, mas quase ninguém faz esse mapeamento antes de contratar. Há uma diferença enorme entre um advogado que usa IA para revisar contratos duas vezes por semana e um time que processa petições diariamente em volume. O plano correto para um não é o correto para o outro, e misturar os dois num mesmo plano de consumidor é pedir para ter problema.
O uso vai ser previsível ou vai variar muito?
Projetos com prazos, como a preparação de um grande processo ou a fase de due diligence de uma transação, geram picos de consumo. Se o escritório não tem como prever esses picos e o plano tem limite fixo, você vai ou pagar muito mais em meses normais ou ficar sem recurso nos meses críticos.
Existe algum mecanismo de monitoramento e auditoria do uso?
Esse é o ponto onde os planos de consumidor mostram sua limitação mais clara. Nos planos Max e Pro, você não tem um painel de administração que mostra quem consumiu o quê, quando, e por qual função. Você tem uma conta individual com um limite opaco. Para fins de gestão, isso é inaceitável.
A diferença entre plano de consumidor e plano corporativo
Esse talvez seja o ponto mais importante para quem está organizando o uso de IA num escritório de forma séria.
Os planos de consumidor da Anthropic, como o Pro e o Max, foram desenhados para pessoas físicas que usam a ferramenta individualmente. Eles têm preço atraente, acesso fácil e limite de uso baseado em política interna da empresa, sem painel administrativo, sem faturamento por unidade de uso e sem suporte técnico dedicado.
Os planos corporativos e a API têm outra lógica: você paga por token consumido, com visibilidade completa de tudo que foi gasto, por usuário, por projeto, por período. Você consegue colocar alertas de gasto, definir tetos por equipe, auditar o uso a qualquer momento e justificar o custo para o cliente ou para a gestão financeira do escritório.
A Uber, que usa o Claude intensivamente no seu time de tecnologia, esgotou o orçamento anual de Claude Code em quatro meses. O CTO da empresa falou publicamente sobre isso. Se uma empresa com toda a estrutura de TI da Uber não controlou o consumo usando planos de consumidor, o escritório médio também não vai.
Aquela frase do presidente da Uber, Andrew Macdonald, merece ficar registrada: “É muito difícil traçar uma linha entre o custo de IA e o retorno que ela gera.” Isso é verdade. E é exatamente por isso que você precisa de um modelo que permita medir.
O que um escritório bem organizado deveria ter hoje
Não estou falando de burocracia. Estou falando de quatro decisões práticas que fazem diferença real.
Uma política de uso de IA por escrito. Não precisa ser extensa. Mas ela define quais ferramentas são autorizadas, quem pode contratar o quê, com qual nível de aprovação, e quais dados podem e não podem ser inseridos em cada plataforma. Sem isso, cada pessoa toma sua própria decisão, e o escritório fica com um portfólio fragmentado de assinaturas que ninguém controla.
Separação entre uso pessoal e uso profissional. Contas pessoais de IA não deveriam ser usadas para trabalho do escritório, pelas mesmas razões pelas quais e-mail pessoal não deveria ser usado para comunicação com clientes. Os dados processados, as conversas mantidas e os limites de uso são todos individuais e desaparecem quando a pessoa sai do escritório.
Tipo de plano adequado ao volume. Para uso esporádico ou para experimentação: plano de consumidor com conta individual. Para uso em produção, com dependência de resultado e volume significativo: API ou plano Enterprise. A conta simples é: se a IA já entrou no fluxo de trabalho oficial do escritório, ela precisa de um contrato oficial, não de um cartão de crédito cadastrado na pressa.
Monitoramento mensal de consumo e custo. Isso existe de forma nativa nos planos de API. Nos planos de consumidor, você tem que fazer manualmente, e é difícil. Por isso os planos de consumidor em uso corporativo tendem a gerar surpresas, tanto de custo quanto de falta de recurso no momento errado.
O que a governança de IA tem a ver com o marketing do escritório
Esse é um tema que eu trabalho com bastante frequência nos escritórios que assessoro: a forma como o escritório usa IA é um elemento de diferenciação perceptível para o cliente.
Quando um escritório consegue dizer, de forma concreta, “usamos IA com política documentada, auditoria de uso, proteção de dados dos clientes e controle de custo por processo”, isso não é detalhe técnico. É argumento de proposta, é diferencial de pitch, é razão para o cliente de médio e grande porte preferir aquele escritório a um concorrente que usa IA de forma improvável.
O caso da Anthropic ajuda a colocar esse ponto em perspectiva. Se uma empresa do porte da Anthropic pode ser processada por falta de clareza na comunicação sobre o que está entregando, o escritório que usa IA sem transparência interna e externa também corre riscos parecidos, seja de credibilidade, seja de compliance, seja de proteção de dados.
A diferença é que o escritório bem organizado já tem a resposta pronta quando o cliente perguntar.
A parte do direito que ainda importa saber
Deixo isso aqui de forma resumida, porque é relevante, mas não é o foco principal.
O Código de Defesa do Consumidor brasileiro (arts. 30, 35 e 37) vincula o fornecedor à oferta que ele faz. Um plano chamado “20x” que entrega 6x seria provavelmente caracterizado como publicidade enganosa, com direito do consumidor à execução forçada ou à rescisão com devolução de valores. A inversão do ônus da prova do art. 6º, VIII seria especialmente útil aqui, já que o consumidor não tem como auditar a contagem de tokens por conta própria.
No Brasil, esse tipo de reclamação ainda é raro em IA, mas a tendência regulatória aponta para mais rigor, não menos. Quem estiver contratando IA de forma desorganizada hoje vai ter mais dificuldade de se adaptar quando a exigência for formal.
Três sinais de que seu escritório precisa organizar o uso de IA agora
Se qualquer uma dessas situações é familiar, vale revisar o modelo de uso antes que vire problema.
O escritório tem mais de duas assinaturas diferentes de IA ativas, cada uma contratada por uma pessoa diferente, sem que a gestão saiba o total gasto por mês.
Alguém já inseriu dados de cliente, petição ou contrato em uma ferramenta de IA sem saber se aquela plataforma tem cláusula de processamento de dados.
O uso de IA cresceu nos últimos seis meses, mas você não consegue dizer com precisão o que essa ferramenta está entregando de retorno por real gasto.
Se dois ou mais desses sinais existem no seu escritório, a conversa que precisa acontecer não é sobre qual IA comprar. É sobre como organizar o que já está sendo usado.
Gustavo Rocha tem mais de 20 anos de experiência em gestão, tecnologia e marketing jurídico. Assessora escritórios de advocacia e departamentos jurídicos na organização e implantação de tecnologia, incluindo governança de IA. Para conhecer mais sobre esse trabalho: gustavorocha.com