Desde 2011, por sugestão do amigo Naor Nemmen, escrevo crônicas, poemas e entrevistas fictícias em homenagem a Santo Ivo, padroeiro dos advogados, cuja festa é celebrada todo dia 19 de maio. Este ano, a conversa ficou longa. E um pouco perturbadora, no bom sentido. Boa leitura.
Encontrei Santo Ivo onde sempre o encontro: numa biblioteca que não existe, com luz de vela que não apaga, cheirando a pergaminho e oração velha. Estava de costas, lendo alguma coisa. Me aproximei.
Gustavo: Santo Ivo, que bom te ver. Como vão as orações pelos advogados lá do alto?
Santo Ivo: Gustavo, que surpresa. As orações vão. Mas estou preocupado. Cada vez que peço iluminação para os advogados, recebo uma resposta automática antes de terminar a frase.
Gustavo: Como assim, resposta automática?
Santo Ivo: Alguém configurou lá no servidor de oração um negócio chamado… ChatGPT? O pedido já chega respondido, com três opções de caminho e um aviso de que o conteúdo pode conter erros. Na Bretanha do século XIII, quando queríamos respostas rápidas, consultávamos o oráculo. Imagino que seja a mesma ideia, mas mais barulhenta.
Gustavo: Hehehe. Chegou perto. ChatGPT, Gemini, Claude — são modelos de inteligência artificial generativa. Aprenderam com bilhões de textos humanos e conseguem escrever, resumir, analisar, argumentar. Muitos advogados já os usam para redigir petições, contratos, pareceres, minutas.
Santo Ivo: E quem assina?
Gustavo: O advogado. Teoricamente.
Santo Ivo: Teoricamente. Gustavo, quantas vezes em minha vida assinei uma petição que não li? Zero. Minha assinatura era minha palavra. Não havia separação entre o que eu afirmava e o que eu respondia por isso.
Gustavo: E é aí que mora o problema. A OAB publicou a Recomendação 001/2024 exatamente por isso. Ela não proíbe IA, mas deixa claro que o advogado supervisiona, revisa e responde pelo que assina. A máquina pode escrever; o profissional responde.
Santo Ivo: Isso me parece correto. Eu usava escribas. O texto final era meu. A análise do caso, minha. A estratégia, minha. O escriba apenas formalizava. Se a IA é o escriba do século XXI, tudo bem. Agora, se o advogado virou apenas quem aperta “enviar”, temos um problema sério.
Gustavo: E temos. Já apareceram casos de petições com jurisprudência inventada pela IA. Acórdãos que não existem, com número de processo e tudo, citados com toda a confiança do mundo.
Santo Ivo: Ela mente?
Gustavo: Os técnicos chamam de “alucinação”. O modelo gera texto estatisticamente plausível mesmo sem base factual. Quando não sabe, inventa algo que parece certo.
Santo Ivo: Na minha época, quando alguém citava jurisprudência falsa num processo, isso tinha nome: fraude. Com consequências. Não havia eufemismo técnico bonito para cobrir.
Gustavo: Pois é. E esse é o ponto que muita gente ainda não internalizou. A IA não é enciclopédia nem banco de dados. É gerador de texto que parece coerente. Às vezes o texto coerente é também o texto correto. Às vezes não. Sem revisão, a diferença pode custar um processo, uma reclamação na OAB, um cliente.
Santo Ivo: Então a questão central não é se a IA escreve bem. É se o advogado ainda pensa.
Gustavo: Exatamente. E agora a coisa subiu de nível. Estamos entrando na era dos agentes de IA.
Santo Ivo: Agentes? Como procuradores?
Gustavo: Quase. São sistemas de IA que não apenas respondem perguntas — eles executam tarefas com autonomia. Um agente pode pesquisar jurisprudência, elaborar minuta de contestação, verificar prazos no sistema do tribunal e enviar notificação ao cliente, tudo em sequência, sem que o advogado precise intervir em cada passo.
Santo Ivo: Isso é fascinante. E um pouco inquietante.
Gustavo: Por que inquietante?
Santo Ivo: Porque a advocacia sempre exigiu julgamento. Não apenas conhecimento: julgamento. Saber o que a lei diz é uma coisa. Saber o que fazer com a lei em cada caso humano específico é outra completamente diferente. Um agente que age sozinho… onde está esse julgamento?
Gustavo: Na programação que o governa. E nos limites que o advogado define antes de ativar o agente.
Santo Ivo: Então o trabalho do advogado mudou de lugar. Antes, ele exercia o julgamento durante o processo. Agora, precisa exercer antes: ao configurar o agente, ao definir o que pode ser automatizado e o que não pode. O risco não desapareceu. Só antecipou.
Gustavo: Isso é uma das observações mais precisas que eu já ouvi sobre o tema. E é exatamente o que a maioria dos advogados ainda não percebeu, porque ainda estão presos na discussão se devem usar IA ou não. Enquanto isso, o cliente do outro lado já usou três ferramentas diferentes para entender o próprio contrato antes de ligar para o escritório.
Santo Ivo: E chegou à consulta sabendo mais do que deveria?
Gustavo: Às vezes chegou com análises de risco que são melhores do que o parecer que o advogado teria cobrado cinco mil reais para fazer.
Santo Ivo: E o advogado que não evoluiu vai explicar por que o trabalho dele vale mais que o da máquina?
Gustavo: Vai ter dificuldade. A resposta honesta é que o valor do advogado está nas coisas que a IA ainda não faz bem: responsabilidade legal, empatia real com o cliente, leitura de contexto humano, negociação, criatividade jurídica em casos sem precedente. Mas para isso, precisa dominar a ferramenta, não desviar dela.
Santo Ivo: Gustavo, no meu tempo precisava entender Direito Romano, Direito Canônico, teologia moral, retórica e latim. Estudei em Paris e em Orléans, não porque o estatuto da ordem exigisse, mas porque cada ferramenta de conhecimento expandia o que eu conseguia fazer pelo meu cliente. A IA é mais uma ferramenta. Uma ferramenta muito poderosa, que pede muito mais discernimento do que aparenta.
Gustavo: E gestão também. Escritórios que adotam IA sem processo viram um caos mais rápido e mais barato. A automação amplifica o que já existe. Se a gestão é boa, a IA acelera. Se é ruim, acelera o problema.
Santo Ivo: Isso me lembra os escribas que copiavam textos sagrados às pressas, sem compreender o que copiavam, introduzindo erros que duraram séculos. Velocidade sem compreensão é perigosa em qualquer época.
Gustavo: Tem ainda a dimensão ética. O Código de Ética da OAB existe. A IA não tem moral própria — ela faz o que você pedir dentro dos limites programados. Tecnicamente, você pode pedir a ela que encontre brechas em contratos para prejudicar a outra parte. Mas isso é compatível com o seu Decálogo?
Santo Ivo: Não. Jamais. O segundo item é recusar causas injustas. E causas injustas não ficam mais justas porque foram processadas mais depressa por uma máquina. A ferramenta é neutra. Quem a usa, não.
Gustavo: Boa sorte explicando isso para quem acha que IA é neutra por definição.
Santo Ivo: Essa confusão entre instrumento e intenção sempre existiu. No século XIII usávamos ela para justificar guerras santas. No XXI usam para justificar algoritmos que excluem os mais pobres do acesso à justiça. O problema não mudou, só ficou mais sofisticado.
Gustavo: Última pergunta. O que você diria para o advogado que está lendo este texto agora?
Santo Ivo: Que o Direito existe para servir o ser humano. Que a tecnologia existe para servir o Direito. A ordem importa. Quando invertemos essa hierarquia, perdemos o fio. O advogado que colocar o cliente no centro, que usar a tecnologia a serviço desse cliente e que preservar o julgamento humano onde ele é insubstituível, esse vai encontrar espaço. O que vai sumir é o advogado que usa IA para parecer que trabalha sem precisar pensar. Mas esse já estava desaparecendo antes da IA existir. Fique com Deus!
Santo Ivo apaga a vela. O pergaminho some. Fica o silêncio e a pergunta de sempre: e você, o quanto está usando, aprendendo e, mais importante, ainda pensando sobre tudo isso?
Gustavo Rocha é advogado, consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico, CEO da Consultoria GustavoRocha.com, professor de pós-graduação e palestrante. Atua há mais de 20 anos com escritórios e departamentos jurídicos no Brasil e em Portugal. Site: gustavorocha.com