A IA está economizando seu tempo. Por que você continua sem tempo?

A inteligência artificial começa a reduzir horas de trabalho em determinadas atividades jurídicas. O phubbing ajuda a entender um paradoxo curioso: talvez estejamos ficando melhores em economizar tempo e piores em decidir o que fazer com ele.

A inteligência artificial entrou definitivamente na discussão sobre produtividade na advocacia. Uma tarefa que levava horas pode, em determinadas situações, ser realizada em muito menos tempo. Documentos extensos podem ser organizados, informações localizadas, primeiras versões produzidas, contratos comparados e grandes volumes de dados analisados com uma velocidade que seria difícil imaginar poucos anos atrás.

Em teoria, deveríamos começar a ter mais tempo.

Na prática, conheço poucos profissionais dizendo que estão com tempo sobrando.

Continuamos correndo entre reuniões, mensagens, prazos, e mails, WhatsApp, documentos, notificações e uma quantidade crescente de informações. A tecnologia acelera o trabalho, mas a sensação de falta de tempo permanece.

Essa aparente contradição me fez lembrar de uma palavra relativamente recente: phubbing.

O termo combina as palavras inglesas phone e snubbing e descreve o comportamento de ignorar alguém que está fisicamente presente para prestar atenção ao celular.

A cena é fácil de reconhecer. Duas pessoas estão tomando café e uma delas começa a responder mensagens. Uma família está almoçando e alguém permanece boa parte do tempo olhando para a tela. Em uma reunião, o telefone fica sobre a mesa e cada notificação provoca aquela rápida mudança de olhar. A pessoa continua fisicamente no ambiente e talvez nem considere que esteja fazendo algo inadequado. Sua atenção, entretanto, está sendo constantemente dividida.

O phubbing passou a ser estudado justamente porque essa fragmentação aparentemente pequena da atenção pode produzir efeitos nas relações. Uma revisão sistemática publicada em 2026 na Acta Psychologica analisou estudos sobre o fenômeno em diferentes contextos, incluindo relações familiares, amizades, ambientes educacionais e profissionais. Os trabalhos revisados relacionam o comportamento a efeitos sobre intimidade, confiança, satisfação e percepção de atenção nas relações.

Outra revisão publicada em 2026, concentrada nas relações íntimas, reuniu 55 estudos e quase 30 mil participantes. Os resultados apontam associação entre o uso do telefone na presença do outro e menor satisfação nos relacionamentos, embora os próprios pesquisadores façam uma ressalva importante: existem limitações metodológicas e seria um erro transformar qualquer uso do celular em comportamento patológico.

Essa ressalva importa porque o problema nunca foi simplesmente o aparelho. Smartphones são ferramentas extraordinárias e transformaram nossa forma de trabalhar, comunicar, viajar, comprar, estudar e acessar informação.

A questão é o que aconteceu com a nossa atenção depois deles.

E é exatamente nesse ponto que encontro uma relação interessante com a inteligência artificial.

A IA pode devolver tempo. Isso não significa que conseguiremos ficar com ele.

O que estamos fazendo com o tempo que a IA economiza?

Quando falamos sobre inteligência artificial aplicada à advocacia, grande parte da conversa gira em torno de produtividade. Existem inúmeras atividades nas quais essas ferramentas podem ajudar: elaboração de primeiras versões de documentos, resumo de processos, comparação de contratos, organização de informações, análise documental, preparação para reuniões, revisão textual, pesquisa, extração de dados e produção de relatórios.

Uso várias dessas possibilidades no meu próprio trabalho e abordo muitas delas em treinamentos e consultorias. Quanto mais observo o uso prático dessas ferramentas, porém, mais me interessa uma pergunta que deveria acompanhar qualquer projeto de IA: para que exatamente queremos fazer tudo isso mais rápido?

Imagine uma atividade que antes consumia duas horas e, com auxílio adequado da inteligência artificial, passa a consumir quarenta minutos. Economizamos uma hora e vinte minutos. A matemática é simples. A gestão desse ganho é muito menos óbvia.

Podemos preencher imediatamente o espaço liberado com outras tarefas. Mais mensagens, mais reuniões, mais documentos, mais processos, mais clientes e mais notificações. Ao final do dia teremos produzido mais, provavelmente faturado mais em alguns modelos de negócio e, ainda assim, poderemos terminar a jornada com a mesma sensação de falta de tempo.

Também podemos utilizar parte desse período para atividades que foram sendo comprimidas pela rotina operacional: conversar com um cliente com calma, estudar um problema complexo, analisar um processo sem interrupções, discutir estratégia com a equipe, melhorar um fluxo de trabalho ou simplesmente encerrar o expediente em um horário mais razoável.

É aqui que produtividade e qualidade de trabalho começam a se separar.

Economizar tempo e possuir tempo são coisas diferentes.

A inteligência artificial realmente pode economizar tempo no trabalho jurídico

Existe evidência empírica de que determinadas formas de utilização da inteligência artificial podem reduzir o tempo necessário para tarefas jurídicas. Um experimento publicado no Journal of Empirical Legal Studies avaliou 206 estudantes de Direito executando atividades jurídicas com diferentes formas de assistência tecnológica.

Em uma das modalidades testadas, na qual a IA auxiliava destacando informações relevantes nos documentos, houve redução aproximada de 30% no tempo necessário para realização da tarefa, sem queda nos indicadores de qualidade medidos pelo estudo. Um aspecto particularmente interessante é que simplesmente fornecer resumos produzidos pela inteligência artificial não apresentou o mesmo resultado.

Esse detalhe merece atenção porque desmonta uma ideia bastante difundida: introduzir inteligência artificial em um processo não gera eficiência automaticamente. O resultado depende da tarefa, da ferramenta, da qualidade da informação fornecida, do fluxo de trabalho e da capacidade humana de utilizar e revisar aquilo que foi produzido.

Colocar inteligência artificial sobre um processo mal estruturado pode apenas permitir que façamos mais rapidamente algo que já fazíamos mal.

Por isso, antes de discutir qual modelo ou plataforma será adotado pelo escritório, existe uma pergunta gerencial mais interessante: onde estamos gastando tempo sem gerar valor proporcional?

A resposta pode estar na elaboração repetitiva de documentos, na procura por informações espalhadas em diferentes sistemas, na produção manual de relatórios, na leitura inicial de grandes volumes documentais ou em dezenas de pequenas atividades que, individualmente, parecem irrelevantes, mas juntas consomem uma parte considerável da jornada.

É nesse espaço que a IA pode ter enorme utilidade.

A advocacia sempre teve uma relação complicada com o tempo

Existe uma peculiaridade nessa discussão quando olhamos especificamente para o mercado jurídico. Durante décadas, parte relevante da advocacia construiu sua lógica econômica em torno do tempo. Horas trabalhadas, horas faturáveis, quantidade de atividades realizadas e volume de documentos produzidos acabaram, em determinados modelos, tornando esforço despendido quase sinônimo de valor entregue.

A inteligência artificial começa a provocar uma tensão nessa lógica.

Imagine uma atividade jurídica que historicamente exige quatro horas. Um advogado experiente, utilizando corretamente inteligência artificial, automação, bases estruturadas e métodos adequados de revisão, consegue executar a mesma atividade em uma hora e meia, mantendo ou aumentando a qualidade da entrega.

Esse profissional passou a valer menos porque demorou menos?

Evidentemente, não. Ele encontrou uma maneira mais eficiente de utilizar conhecimento, tecnologia e experiência. O problema surge quando o modelo econômico continua premiando exclusivamente a quantidade de horas consumidas. Nesse caso aparece uma contradição: investimos em tecnologia para ganhar eficiência, mas mantemos uma estrutura de remuneração que pode premiar justamente a demora.

Esse debate tende a crescer conforme a inteligência artificial se tornar parte normal do trabalho jurídico. E não ficará restrito aos honorários. Chegará à gestão das equipes, aos indicadores de produtividade, ao dimensionamento das estruturas e à própria definição do que significa ser um advogado produtivo.

O risco de a IA repetir a história do smartphone

É aqui que volto ao phubbing.

O smartphone chegou trazendo uma extraordinária promessa de mobilidade. Passamos a carregar comunicação, mapas, documentos, câmera, banco, agenda, notícias, música e inúmeros serviços dentro do bolso. O ganho foi real e dificilmente alguém gostaria de retornar ao mundo anterior.

Só que aconteceu algo interessante. Aos poucos, o aparelho também ocupou praticamente todos os pequenos espaços vazios da nossa rotina.

Esperamos o elevador olhando o telefone. Ficamos alguns minutos na fila e abrimos uma rede social. Chegamos antes de uma reunião e respondemos mensagens. Durante uma palestra alternamos entre o conteúdo apresentado e notificações. Em alguns casos, até uma conversa presencial passa a disputar nossa atenção com aquilo que está acontecendo na tela.

O smartphone economizou tempo em inúmeras atividades e, ao mesmo tempo, encontrou maneiras de ocupar boa parte do tempo que havia economizado.

A inteligência artificial pode produzir algo semelhante.

Podemos reduzir uma atividade de duas horas para quarenta minutos e imediatamente preencher os oitenta minutos restantes com outras atividades. Depois automatizamos parte dessas novas tarefas e ocupamos novamente o espaço liberado. Em pouco tempo teremos uma estrutura tecnologicamente muito mais eficiente, produzindo muito mais, composta por pessoas que continuam dizendo exatamente a mesma coisa que diziam antes da IA:

“Eu não tenho tempo.”

Esse seria um resultado bastante curioso para uma tecnologia cuja principal contribuição prática é justamente reduzir o tempo necessário para executar determinadas tarefas.

Um exemplo simples dentro de um escritório

Imagine um advogado que recebe um processo com centenas ou milhares de páginas. Antes, boa parte da manhã seria dedicada à primeira leitura, identificação dos principais documentos, organização cronológica dos acontecimentos e localização das informações relevantes.

Com metodologia adequada, ferramentas seguras e revisão humana, a inteligência artificial pode auxiliar na construção de uma cronologia inicial, na identificação de personagens, na localização de documentos, na separação de argumentos e na preparação de uma visão preliminar do caso. O advogado continua responsável pela análise jurídica e precisa conferir o material, mas parte considerável do trabalho mecânico pode ser reduzida.

O que acontece com o tempo economizado?

Uma possibilidade é simplesmente colocar outro processo sobre a mesa. Outra seria utilizar vinte ou trinta minutos para telefonar ao cliente e conversar sobre aquilo que a análise documental não conseguiu revelar. Perguntar sobre o contexto, entender a origem do conflito, descobrir uma informação que não está nos autos ou simplesmente ouvir a percepção daquele cliente sobre o problema.

Essa conversa pode gerar uma informação que nenhuma ferramenta encontraria porque ela nunca foi registrada em documento algum.

Algo semelhante ocorre com relatórios gerenciais. Uma equipe pode utilizar IA para organizar dados e preparar uma primeira versão de um relatório que anteriormente consumia seis horas e agora exige três, considerando conferência e ajustes. O gestor pode utilizar as três horas restantes para solicitar mais relatórios. Mas também pode aproveitar parte desse período para discutir com a equipe o significado dos dados, identificar clientes que precisam de atenção e perceber tendências que a rotina operacional estava escondendo.

Nesse exemplo, a IA organiza informação. O profissional utiliza o tempo recuperado para transformar informação em decisão.

Essa diferença parece pequena, mas é central para compreender o valor da tecnologia.

Quanto mais IA tivermos, mais valiosa poderá se tornar a atenção humana

Existe uma ironia nesse momento tecnológico. Estamos desenvolvendo ferramentas cada vez mais capazes de executar atividades cognitivas em grande velocidade justamente quando nossa própria capacidade de concentração está sendo disputada por mensagens, aplicativos, notificações e telas.

Por isso acredito que a atenção poderá se tornar um ativo profissional ainda mais importante na era da inteligência artificial.

Isso vale especialmente para a advocacia. O cliente também terá acesso crescente a ferramentas de IA. Ele poderá pedir um resumo de um contrato, pesquisar uma questão jurídica, organizar documentos, formular perguntas e obter explicações preliminares sobre determinados assuntos. Existem limites técnicos, jurídicos e de confiabilidade nessas respostas, mas a capacidade de acesso à informação tende a continuar crescendo.

Então, por que alguém continuará procurando um advogado?

Experiência, segurança jurídica, estratégia, responsabilidade profissional e capacidade de compreender contexto certamente fazem parte da resposta. Existe, porém, um componente humano que frequentemente subestimamos: pessoas querem sentir que seus problemas foram compreendidos.

E compreender exige atenção.

Um advogado que passa uma reunião realmente ouvindo o cliente pode gerar mais valor do que aquele que responde cada mensagem em poucos segundos. Um gestor que utiliza a tecnologia para liberar a equipe de tarefas repetitivas e cria espaço para análise pode construir uma organização melhor. Um profissional que economiza quarenta minutos em uma atividade e utiliza parte desse tempo para estudar profundamente um assunto talvez produza uma solução jurídica superior na próxima vez que enfrentar problema semelhante.

A inteligência artificial pode acelerar o processamento da informação. Não existe motivo para que ela acelere também todas as relações humanas ao redor dela.

Precisamos começar a observar o destino do tempo economizado

Nos projetos de gestão jurídica estamos acostumados a trabalhar com indicadores: número de processos, prazos, receita, rentabilidade, conversão, horas, tempo médio de atendimento e produtividade.

Talvez a inteligência artificial esteja criando espaço para uma análise menos tradicional, mas bastante útil. Escritórios e departamentos jurídicos poderiam começar a observar quanto tempo determinadas automações e ferramentas efetivamente economizam e, principalmente, o que acontece com esse tempo depois.

Não estou sugerindo criar uma planilha para registrar cada minuto economizado. Seria quase irônico desperdiçar tempo tentando provar obsessivamente que economizamos tempo.

A proposta é gerencial. Se determinada automação economiza cinquenta horas por mês de uma equipe, precisamos saber minimamente se essas cinquenta horas desapareceram dentro de outras atividades operacionais ou se produziram algum benefício perceptível para a organização.

Parte pode voltar para produção. Em determinadas fases isso será necessário e desejável. Outra parte pode ser utilizada para análise estratégica, relacionamento com clientes, capacitação, revisão de processos internos ou redução da sobrecarga da equipe.

Tempo economizado só se transforma em valor quando existe uma decisão sobre o que fazer com ele.

E se começarmos a praticar phubbing com inteligência artificial?

Há ainda um risco mais sutil nessa história. Podemos começar a desenvolver uma espécie de phubbing provocado pela própria inteligência artificial.

Imagine uma reunião com um cliente. Enquanto ele explica o problema, o advogado já está utilizando uma ferramenta para resumir sua fala, estruturar possíveis respostas, pesquisar argumentos ou preparar um documento. Tecnicamente, pode parecer uma utilização extremamente eficiente da tecnologia.

Só que existe uma pergunta desconfortável: enquanto a máquina processava a conversa, o advogado estava realmente ouvindo?

Podemos chegar ao ponto em que alguém apresenta uma ideia e, antes mesmo de refletirmos sobre ela, perguntamos ao modelo o que deveríamos pensar. O cliente relata um problema e imediatamente buscamos uma resposta automatizada. Um colega apresenta uma dúvida e nossa primeira reação deixa de ser raciocinar para se tornar consultar uma inteligência artificial.

Não vejo problema em utilizar IA durante reuniões quando isso faz sentido e quando existem os cuidados necessários com confidencialidade, segurança, sigilo profissional e proteção de dados. A questão é outra. A ferramenta deve ampliar nossa capacidade de compreensão, e não substituir nossa disposição para prestar atenção.

A IA pode ser uma excelente segunda inteligência na mesa. Não precisa ocupar a primeira cadeira.

O verdadeiro luxo tecnológico pode ser recuperar nossa atenção

Durante muito tempo associamos evolução tecnológica à capacidade de fazer mais coisas em menos tempo. Essa lógica continua válida, mas é incompleta.

Uma tecnologia realmente útil também pode permitir que façamos menos coisas desnecessárias.

Quando penso em inteligência artificial aplicada à advocacia, vejo enorme potencial na produção de documentos, análise de dados, pesquisa, organização de conhecimento e automação de tarefas. Mas vejo um potencial ainda maior quando essas ferramentas retiram da rotina humana aquilo que consome tempo sem exigir aquilo que temos de melhor.

Se uma IA reduz de uma hora para quinze minutos determinada atividade, os quarenta e cinco minutos restantes não precisam automaticamente virar outra tarefa.

Talvez sejam utilizados para preparar melhor uma reunião. Talvez permitam estudar um tema que estava sendo adiado. Talvez virem uma conversa com alguém da equipe. Talvez sejam utilizados para telefonar a um cliente que há meses recebe apenas mensagens e relatórios.

E talvez permitam simplesmente chegar em casa quarenta e cinco minutos mais cedo.

Também existe valor nisso.

É nesse ponto que phubbing e inteligência artificial acabam se encontrando. Criamos tecnologias capazes de economizar nosso tempo e, simultaneamente, vivemos cercados por tecnologias extraordinariamente eficientes em consumir nossa atenção. A IA pode ampliar esse paradoxo ou pode nos ajudar a enfrentá lo. A diferença estará muito menos no modelo utilizado e muito mais nas escolhas que fizermos sobre o trabalho.

Talvez seja por isso que a pergunta mais interessante sobre produtividade na era da inteligência artificial já não seja quantas horas conseguimos economizar.

A pergunta vem depois.

A IA está economizando seu tempo. Por que você continua sem tempo?

A resposta pode dizer muito sobre o escritório que estamos construindo. E talvez diga ainda mais sobre a vida profissional que queremos ter.

#ForteAbraço

Gustavo Rocha
Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico. Especialista em inteligência artificial, inovação, LGPD, Legal Ops e estratégia aplicada ao mercado jurídico.
http://www.gustavorocha.com
http://www.gustavorocha.ia.br

Fontes consultadas

Jakhar, Madhu; Gupta, Rajnish Kumar; Vyas, Dev. Digital disconnection: A systematic review of phubbing behavior. Acta Psychologica, 2026.

Revisão sistemática sobre phubbing e technoference em relacionamentos íntimos, publicada em Computers in Human Behavior Reports, 2026. A pesquisa sintetizou 55 estudos envolvendo 29.925 participantes.

Nielsen, Aileen et al. Building a Better Lawyer: Experimental Evidence That Artificial Intelligence Can Increase Legal Work Efficiency. Journal of Empirical Legal Studies. Estudo experimental com 206 estudantes de Direito sobre diferentes formas de assistência de inteligência artificial em tarefas jurídicas.

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