Claudês (ou pros íntimos, Claudio): o Direito importou um dialeto novo justamente quando estava se livrando do antigo

Vinte anos de esforço para abandonar “cártula chéquica” e, agora, pareceres começando a soar como “meu erro não foi periférico, foi fundacional”. A mudança é silenciosa e o custo dela não aparece em nenhuma planilha.

Pedi a uma IA que revisasse um trecho de contrato. Apontei um problema na revisão. A resposta veio nesse registro: “Você tem razão em objetar. Meu erro não foi periférico; foi fundacional.”

O que me chamou atenção não foi a frase da máquina. Foi lembrar que, poucos dias antes, eu havia escrito para um cliente que a cláusula tinha um vício “de origem, não periférico”. Ninguém me ensinou a escrever assim. Absorvi por convivência, do mesmo modo que absorvemos vícios de linguagem de um chefe, de um professor ou de uma banca que frequentamos demais.

Esse fenômeno já tem nome e já tem quem o estude.

O que se convencionou chamar de claudês ou Cláudio, pra quem é mais íntimo.

A comunidade de tecnologia batizou de “claudish”, ou claudês, o tipo específico de inglês que o Claude Code usa nas respostas quando alguém está fazendo vibe coding. O ponto relevante vai além do vocabulário incomum: a estrutura das frases e a forma de construí-las se alteram a tal ponto que dominar o inglês não garante compreender o que está sendo dito.

Ethan Mollick, professor da Wharton que estuda adoção de inteligência artificial, registrou algo mais importante do que a curiosidade linguística. Em tarefas longas, o modelo desenvolve o próprio dialeto, porque os vários agentes e tarefas se reforçam entre si e tornam a linguagem progressivamente mais fechada, o que obriga o usuário a pedir explicitamente um relatório em inglês simples. Ele comparou o esforço de decifrar isso a ler inglês shakespeariano.

O fenômeno se intensificou com a chegada do Fable 5, que prefere formulações como “correção alcançada; a legibilidade não” onde uma pessoa diria que a conta está certa e a tabela ficou ilegível. A repercussão foi grande o suficiente para que, em agosto de 2026, um engenheiro publicasse um plugin que traduz automaticamente as respostas do modelo para inglês corrente.

Duas informações dessa história deveriam interessar a qualquer gestor jurídico.

A primeira é que o domínio do dialeto já está sendo tratado como sinal de competência. Um fundador de startup relatou que pretende entregar ao candidato um parágrafo em claudês e pedir a tradução, para medir quanto tempo de prática ele tem com a ferramenta.

A segunda é a explicação econômica de por que ninguém simplesmente pede à máquina que fale normal. É possível fazer isso, só que cada pedido de tradução consome tokens, e sai mais barato o humano aprender o idioma da máquina do que exigir que a máquina se ajuste a ele.

Também não se trata de particularidade de um fornecedor. Yuntian Deng, professor associado em Harvard, observou que o Codex, da OpenAI, historicamente mais direto e conciso, começou a se aproximar desse mesmo padrão. A hipótese de moda passageira, portanto, é frágil.

A inversão de direção

Há um ponto na reportagem original do UserMag que merece mais atenção do que a repercussão que teve. Durante décadas, o objetivo da computação foi fazer a máquina entender melhor o ser humano. Com a IA agêntica, a relação se inverte, e o humano passa a aprender um dialeto gerado por máquina porque comunicar assim é mais rápido e mais barato.

Essa inversão é exatamente o oposto do que costumamos chamar de tecnologia humanizada. Tecnologia humanizada é a que se ajusta à pessoa do outro lado. Quando a pessoa precisa aprender um idioma para operar a ferramenta, quem se adaptou foi ela.

No Direito, a consequência é mais séria do que no desenvolvimento de software, por uma razão estrutural. O destinatário final do nosso texto raramente é técnico. É o cliente que assina o contrato, o gestor que decide com base no parecer, a parte que recebe a sentença, o servidor que despacha, o magistrado com milhares de processos e poucos minutos para entender o caso. Um desenvolvedor que aprende a decifrar claudês economiza tempo dele mesmo. Um advogado que escreve em claudês transfere o custo de compreensão para quem paga a conta.

Todo token economizado ao deixar de pedir tradução é pago mais tarde por alguém, normalmente pelo cliente, em uma reunião de esclarecimento que não entra na fatura.

Já vivemos essa discussão, com outro nome

Aqui o assunto sai do noticiário de tecnologia e entra na nossa história recente.

Em 11 de agosto de 2005, na FGV do Rio de Janeiro, a Associação dos Magistrados Brasileiros lançou a Campanha Nacional pela Simplificação da Linguagem Jurídica, propondo mudanças simples de hábito, como usar cadeia em lugar de “ergástulo público” e folha de cheque em lugar de “cártula chéquica”. A iniciativa nasceu depois de pesquisa Ibope apontar a dificuldade de compreensão da linguagem jurídica como um dos maiores problemas do Judiciário na percepção da sociedade.

Duas décadas depois, o esforço virou política institucional. O CNJ editou a Recomendação 144, de 25 de agosto de 2023, orientando os tribunais a adotar linguagem simples nas comunicações e nos atos que praticam. Em 4 de dezembro de 2023, no 17º Encontro Nacional do Poder Judiciário, foi lançado o Pacto Nacional pela Linguagem Simples, com cinco eixos, entre eles a simplificação dos documentos e a orientação de evitar jargões, siglas e estrangeirismos. O pacto obteve adesão de 100% dos tribunais, e o então presidente do CNJ, ministro Luís Roberto Barroso, sustentou que parte considerável das críticas ao Judiciário decorre da incompreensão do que está sendo decidido, porque a linguagem hermética acaba operando como instrumento de poder e de exclusão de quem não domina aquele código.

Agora coloque os dois movimentos lado a lado. O sistema de Justiça assinando compromisso público de escrever de forma compreensível. E o mesmo sistema incorporando, em volume que ninguém está medindo, texto produzido por ferramentas que escrevem de modo cerimonioso por padrão e que se tornam mais cerimoniosas quanto mais tempo a equipe passa trabalhando com elas.

A diferença entre os dois dialetos é de escala. O juridiquês era artesanal, cada profissional construía o seu ao longo da carreira. O claudês chega pronto, em série, sem custo marginal, e se instala pela via mais discreta que existe em qualquer escritório, o copiar e colar.

Onde o dialeto entra na operação

Na prática, o contágio acontece por camadas, em ordem crescente de dano.

Começa nos prompts e documentos internos, onde ninguém reclama porque todos entendem. Passa aos resumos de reunião, que ganham aparência de sofisticação e perdem clareza sobre o que ficou decidido. Chega às propostas comerciais, que passam a soar caras e vagas ao mesmo tempo. Contamina políticas internas, POPs e material de governança, textos que ninguém lê e que, por isso, ninguém cumpre. Atinge pareceres e comunicações com cliente, o lugar mais caro de todos. E termina no marketing jurídico, onde o texto cerimonioso conflita com a sobriedade exigida da publicidade da advocacia e ainda transmite a impressão de que o escritório não sabe explicar com precisão o que faz.

Alguns indicadores de que a equipe já incorporou o dialeto merecem observação:

O parecer tem mais oração intercalada do que conclusão. O resumo executivo precisa de resumo. O cliente responde apenas “ok”, aquele ok de quem desistiu de entender e vai ligar depois. Termos como fundacional, assimetria e periférico aparecem em reunião de gestão sem que ninguém os tenha definido.

O indicador mais relevante, porém, é o de formação. O Direito sempre ensinou a escrever por imitação. Se a referência de escrita do advogado júnior passa a ser o texto do modelo, e não a peça revisada do sócio, em dois ou três anos o padrão do escritório será o padrão da ferramenta. Ninguém decidiu isso em reunião de sócios, e é exatamente por isso que acontece.

Os contrapontos que sustentam o outro lado

Tratar isso como catástrofe seria exagero e enfraqueceria o argumento.

Termo técnico tem função. A própria AMB registrou, em 2005, que a campanha não pretendia abolir os termos técnicos, e sim evitar os excessos que impedem a sociedade de compreender os textos jurídicos. Precisão terminológica protege o cliente, e simplificar até o ponto de perder densidade é outro tipo de erro, que cobra caro em contrato e em recurso.

Boa parte do que hoje se chama claudês, além disso, é comportamento tecnicamente correto com roupa inadequada. Quando o modelo separa o que verificou do que apenas supôs, sinaliza incerteza e explicita a premissa adotada, ele faz algo que todo parecer deveria fazer. O problema está na pompa da forma, não no rigor do conteúdo, e essas duas coisas podem ser separadas na revisão.

Vale registrar também que dialeto interno acelera equipe. Todo escritório tem sua gíria, sigla de cliente, apelido de processo. O risco não está no jargão de corredor, e sim na ausência de filtro entre ele e o documento que sai.

O que significa humanizar, nesse contexto

Existe uma confusão frequente entre humanizar e simpatizar. Humanizar um texto jurídico não tem relação com abrir o e-mail perguntando se está tudo bem, nem com substituir termo difícil por linguagem informal. Humanizar significa reduzir o custo de compreensão de quem lê, preservando a precisão de quem escreve. São dois objetivos que só parecem incompatíveis quando o autor tem pressa.

O mesmo raciocínio vale para o lado da tecnologia. Humanizar o uso de IA em um escritório significa definir que a régua da qualidade é o entendimento do destinatário, e não a elegância da frase nem a fluência de quem opera a ferramenta.

Assumo a ironia da minha própria situação. Tenho, na minha configuração de IA, regra escrita proibindo travessão e proibindo aquela construção de contraste artificial que nega uma coisa para afirmar outra em seguida. Ainda assim, as duas passam de vez em quando. Se acontece com quem escreve sobre o assunto e criou regra específica para evitá-lo, é razoável supor o que ocorre em estruturas onde nada foi combinado.

Sete medidas aplicáveis nesta semana

Todas de custo próximo de zero e de efeito verificável.

  1. Regra do WhatsApp. Frase que você não enviaria ao cliente por WhatsApp não entra no parecer.
  2. Padrão de linguagem no prompt do escritório. Frases curtas, voz ativa, sem estrangeirismo dispensável, sem fórmula cerimoniosa, glossário ao final quando o termo técnico for indispensável.
  3. Revisão humana nominal. Nada segue para cliente ou para o processo sem que alguém assuma a revisão pelo nome. Quem assina responde, e isso vale para a redação também.
  4. Glossário reverso. Lista viva de expressões banidas internamente, alimentada pela equipe, com a tradução ao lado.
  5. Leitura em voz alta. Se o autor tropeça ao ler, o destinatário tropeça igual. É o teste mais barato disponível.
  6. Uma métrica única. Número de perguntas que o cliente devolve depois de receber o documento. Reunião de esclarecimento é retrabalho não faturado e funciona como o melhor termômetro de clareza que existe.
  7. Formação do júnior sobre material do escritório. Referência de escrita é peça própria, revisada e comentada, não a última resposta bem formulada da ferramenta.

Sobre a ideia de avaliar candidatos pelo domínio do dialeto, o Direito faria melhor invertendo o teste. Em lugar de pedir a tradução de um parágrafo em claudês, entregue um parecer real e peça que a pessoa explique em cinco linhas, para um cliente leigo, o que precisa ser decidido e quais são os riscos. Essa competência vale mais do que familiaridade com o vocabulário da máquina.

Conclusão

O claudês ou simplesmente Claudio rende boas piadas e é por isso que circulou tanto. O que ele revela, porém, é uma escolha silenciosa que muitos escritórios já fizeram sem discutir: ajustar o próprio texto ao gosto da ferramenta, porque assim sai mais rápido e mais barato.

O Direito brasileiro passou vinte anos tentando derrubar um muro de linguagem que ele mesmo construiu. Reconstruí-lo com material importado, em nome de eficiência operacional, seria um desperdício de trajetória.

Linguagem simples é a última milha da tecnologia jurídica. Um escritório pode ter a melhor estrutura tecnológica do mercado e, se o cliente não entende o que recebeu, a entrega não chegou.

Se esse assunto conversa com o momento do seu escritório ou do seu departamento jurídico, vale olhar o padrão de linguagem, a camada de revisão e a governança de IA como um conjunto só. É esse tipo de detalhe operacional que decide se a tecnologia vai gerar valor ou apenas volume.

Fontes: UserMag (Taylor Lorenz), Xataka Brasil e veículos que reproduziram a repercussão do tema, CNJ (Recomendação 144/2023 e Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples), AMB (Campanha Nacional pela Simplificação da Linguagem Jurídica, 2005).

Gustavo Rocha
Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico. Especialista em inteligência artificial, inovação, LGPD, Legal Ops e estratégia aplicada ao mercado jurídico.
www.gustavorocha.com
www.gustavorocha.ia.br

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