A era do chatbot acabou: agora a IA executa o trabalho

A OpenAI lançou o ChatGPT Work. E a Anthropic já tinha o Cowork rodando há meses

Essa semana caiu um material na minha mesa anunciando o “ChatGPT Work” e uma nova família de modelos chamada GPT 5.6, com três variantes batizadas de Sol, Terra e Luna. Antes de comentar o conteúdo em si, vale uma correção de rota, porque o texto que recebi tratava isso como se fosse uma novidade isolada, sem contexto do que já está acontecendo do outro lado, na Anthropic. E é exatamente aí que a história fica interessante.

Vou separar em partes. Primeiro, o que de fato mudou com o GPT 5.6 e o ChatGPT Work. Depois, como isso se compara com o que a Anthropic já vinha fazendo com o Claude Cowork e com a própria linha de modelos Claude. Também entra o GitHub Copilot, que recebeu o mesmo GPT 5.6 na mesma semana, mas joga num campo diferente. E no final eu dou minha leitura sobre o que isso significa pra quem trabalha com direito.

O que realmente é o GPT 5.6

Em 9 de julho, depois de receber sinal verde do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, a OpenAI liberou globalmente a família GPT 5.6, dividida em três modelos: Sol, o topo de linha, pensado para tarefas complexas de raciocínio e programação. Terra, o modelo intermediário, voltado para o trabalho do dia a dia com custo bem menor. E Luna, o mais rápido e mais barato dos três, para tarefas repetitivas em escala.

A ideia de dividir em camadas de capacidade, ao invés de lançar um único modelo genérico, não é exatamente nova. É basicamente a mesma lógica que já víamos em outras famílias de modelo, incluindo a da própria Anthropic. O que muda aqui é o nome. Ao invés de números de versão que ninguém memoriza, a OpenAI resolveu batizar as camadas com nomes próprios que devem se manter ao longo do tempo, mesmo quando a geração numérica mudar.

O ChatGPT Work é o ambiente que dá suporte a tudo isso. Em vez de você fazer uma pergunta e receber uma resposta em texto que precisa copiar e colar em outro lugar, o Work puxa contexto de documentos, Slack, Notion, Microsoft 365 e Google Drive, e entrega direto um resultado pronto: planilha, apresentação, relatório, protótipo de tela. A OpenAI descreve isso como transformar o ChatGPT de assistente de conversa em ambiente de execução de trabalho.

Nos números que a própria OpenAI divulgou, o Sol chegou a 80 pontos no índice de agentes de codificação da Artificial Analysis, 2,8 pontos acima do Claude Fable 5, usando menos da metade dos tokens e menos tempo. Em contrapartida, no SWE-Bench Pro, que mede resolução de problemas reais de engenharia de software, o Sol marcou 64,6%, enquanto o Claude Mythos 5 chegou a 80,3%. Uma diferença de quase 16 pontos, o que mostra que “melhor modelo” depende muito de qual prova você está olhando. No índice geral de inteligência da Artificial Analysis, o Fable 5 segue na frente, com 59,9 contra 58,9 do Sol.

E o Cowork, que a Anthropic já vinha rodando

Aqui está o ponto que faltou no material original: a Anthropic não está correndo atrás desse conceito de “ambiente de trabalho” agora. O Claude Cowork já existe como aplicativo de desktop desde janeiro deste ano, e na semana passada, em 7 de julho, ganhou versões para web e celular, disponíveis para quem está nos planos Max, com expansão prevista para os demais planos pagos.

A lógica do Cowork é parecida com a que a OpenAI está descrevendo agora para o Work. Você não fica trocando prompt por prompt. Você descreve o resultado que quer, o Claude monta um plano, executa em um ambiente isolado nos servidores da própria Anthropic, e entrega o material pronto pra revisão. A sessão continua rodando mesmo se você fechar o notebook ou ficar sem internet no celular, porque o processamento não depende do seu equipamento estar ligado.

A Anthropic divulgou um levantamento com 1,2 milhão de sessões do Cowork, e o resultado é bem sintomático de como as pessoas de fato usam essas ferramentas fora do universo de programação. O maior bloco de uso, 33,4%, foi para o que eles chamam de operação de processos de negócio: juntar atualizações espalhadas em um relatório único, montar checklist de onboarding, conciliar planilha. Depois vem produção de conteúdo e redação, com 16,4%: rascunho, apresentação, post, proposta. Desenvolvimento de software ficou em apenas 8,7%. Isso confirma algo que eu já vinha percebendo nos escritórios que atendo: a maior parte do valor prático da IA generativa não está em programar, está em resolver o trabalho burocrático que consome o dia de qualquer profissional, advogado incluso.

A confusão de nomes dos dois lados

Um detalhe que vale esclarecer, porque gera bastante confusão nas conversas que tenho com clientes: hoje a Anthropic tem quatro modelos principais em produção, chamados Opus 4.8, Sonnet 5, Haiku 4.5 e Fable 5, além de uma categoria acima do Opus chamada Mythos, cujo primeiro representante público é o Fable 5 e o Mythos 5, lançados em 9 de junho. Fable 5 e Mythos 5 usam o mesmo modelo por baixo do capô, mas o Fable 5 tem camadas extras de segurança em biologia, cibersegurança e pesquisa de modelos de IA, o que o torna a versão liberada para uso geral.

Vale registrar também que esses dois modelos tiveram um percalço real: entre 12 e 30 de junho, o acesso a ambos foi suspenso pela própria Anthropic para cumprir controles de exportação do governo americano, e só foi restabelecido em 1º de julho, depois que o Departamento de Comércio revogou a restrição. Ou seja, estamos falando de um lançamento ainda recente e com histórico de instabilidade regulatória, algo que também merece atenção de quem decide qual modelo usar em processo crítico.

Voltando à comparação: no teste de uso de ferramentas chamado Toolathlon, o Fable 5 marcou 61,7%, contra 59,9% do Opus 4.8 e 58% do Sol da OpenAI. Já no OSWorld, que mede automação de computador, o Sol chegou a 62,6% e superou o Opus 4.8 usando 85% menos tokens de saída. Nenhum dos dois lados vence em tudo. E isso, pra quem decide qual ferramenta usar no escritório, é a informação mais importante de toda essa comparação de números.

E o GitHub Copilot, onde entra nisso

Tem um terceiro nome que vale colocar na mesa, porque também recebeu o GPT 5.6 na mesma semana: o GitHub Copilot. A Microsoft liberou Sol, Terra e Luna dentro do Copilot quase junto com o lançamento da OpenAI, com Sol reservado pras assinaturas Pro+, Max, Business e Enterprise, e cobrança por uso conforme o modelo escolhido.

Aqui cabe uma distinção que costuma gerar confusão, inclusive entre quem já usa essas ferramentas no escritório: Copilot não é a mesma coisa que ChatGPT Work ou Claude Cowork. O Copilot nasceu e continua sendo, essencialmente, um assistente de programação, dentro do editor de código ou do GitHub. Ele resolve muito bem revisão de código, sugestão de trecho, automação de tarefa de desenvolvimento. Não é a ferramenta que você abre pra montar apresentação de cliente ou organizar planilha financeira do escritório, que é exatamente o território onde Work e Cowork estão brigando.

Então, na prática, não são três concorrentes disputando o mesmo espaço. São duas categorias diferentes. De um lado, ChatGPT Work e Claude Cowork, competindo pelo posto de ambiente de trabalho geral, útil pra quem lida com documento, contrato, relatório, conteúdo. Do outro, Copilot, útil apenas se o escritório tiver alguém programando ou automatizando processo internamente, o que hoje ainda é minoria na advocacia, mesmo com o crescimento das áreas de innovation e legal ops.

Ainda assim, o dado é relevante pra quem acompanha os números: com o mesmo Sol usado no Copilot, a Microsoft descreve o modelo como o de maior teto de raciocínio da família, indicado pra trabalho de agente de longa duração sobre bases de código grandes. Isso reforça o que já vinha aparecendo nos outros benchmarks. O Sol é forte em tarefa de codificação pesada. Mas isso não se traduz automaticamente em qualidade no trabalho de escritório de advocacia, que exige outro tipo de raciocínio.

O que muda de fato pra quem trabalha com direito

Eu já vinha dizendo isso antes do GPT 5.6 existir e continuo dizendo agora: o salto real não está na inteligência do modelo. Está na saída da lógica de conversa e na entrada da lógica de entrega.

Pega um exemplo concreto. Um contrato chega pra revisão. No modelo antigo de chat, você cola o texto, faz pergunta, copia resposta, cola em outro lugar, repete. No modelo de ambiente de trabalho, seja ele Work ou Cowork, você descreve o resultado esperado, e a ferramenta lê o contrato, pesquisa jurisprudência, compara cláusulas com um modelo padrão do escritório, monta um relatório executivo e ainda deixa pronta uma minuta de e-mail pro cliente. O advogado revisa e decide. Mas para de perder tempo com a parte mecânica.

Isso é uma mudança de processo, não de tecnologia. E é justamente aí que continuo vendo o mesmo erro de sempre nos escritórios: comprar a ferramenta antes de organizar o fluxo. Não importa se é ChatGPT Work, Cowork ou qualquer outro nome que apareça no próximo lançamento. Se o escritório não tem padronização de documento, critério de revisão e governança sobre o que pode ou não ser automatizado, a IA só vai acelerar a desorganização que já existia. Isso eu vejo toda semana, em quase todo escritório que passa pela minha consultoria antes de qualquer implantação.

Minha leitura final

Entre GPT 5.6 e Claude, cada lado tem argumento pra se defender nos números, e nenhum dos dois é irrelevante. Dependendo da tarefa, um vence o outro com margem visível. Mas a decisão de qual usar no escritório não deveria ser baseada em qual saiu na frente num benchmark essa semana, porque isso muda de mês em mês, e vai continuar mudando.

A decisão certa passa por outra pergunta: qual ferramenta se integra melhor no fluxo que o escritório já tem, com qual nível de controle sobre acesso a documento sigiloso, e com qual curva de adoção real da equipe. Isso é trabalho de gestão, não de escolha de modelo.

Se você quer estruturar isso de forma séria no seu escritório, com critério e sem correr atrás de lançamento por lançamento, é exatamente esse o trabalho que faço na consultoria e nos treinamentos. Mais informação em gustavorocha.com e em http://www.gustavorocha.ia.br

Gustavo Rocha Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico gustavorocha.com | gustavo@gustavorocha.com

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