Toca primeiro, pede desculpa depois: o rock and roll da IA na gestão

Dia 13 de julho é o dia do rock. A data existe por causa do Live Aid, aquele festival gigante de 1985 que juntou Londres e Filadélfia pra arrecadar dinheiro contra a fome na Etiópia. Mas toda vez que essa data chega eu penso menos no Live Aid e mais numa coisa meio óbvia que a gente esquece de notar: o rock sempre foi trilha sonora de gente que resolveu agir antes de perguntar se podia.

Tem uma frase que circula há décadas no mundo da tecnologia e que eu gosto de repetir em quase toda reunião de consultoria: é mais fácil pedir desculpa do que pedir permissão. A Grace Hopper, uma das pioneiras da computação, já dizia isso nos anos 1980. E o rock nasceu assim também. Ninguém pediu autorização pra plugar uma guitarra elétrica num amplificador e tocar mais alto que uma orquestra inteira. Fizeram, e só depois a história resolveu se aquilo tinha sido genial ou irresponsável.

Hoje, olhando pra inteligência artificial dentro dos escritórios de advocacia que eu atendo, eu vejo o mesmo filme passando. E é sobre isso que eu quero falar hoje, com a desculpa perfeita do calendário.

A IA não pede licença, ela testa e ajusta depois

Um erro clássico que eu vejo em processo de adoção de IA em escritório jurídico é tratar a ferramenta como se fosse mais um sistema de gestão processual, daqueles que se implanta depois de seis meses de homologação e um manual de trezentas páginas. IA não funciona assim. Funciona mais como um riff que você testa ao vivo antes de gravar em estúdio.

Costumo falar pros sócios com quem trabalho: comece pequeno, teste com um caso real, erre rápido e corrige. Isso incomoda quem vem de uma cultura jurídica acostumada com previsibilidade e conferência antes de qualquer assinatura, eu sei. Mas a IA generativa se comporta melhor quando você usa, erra, aprende e ajusta o próximo prompt do que quando fica esperando três meses de comitê pra liberar o primeiro teste.

Isso não quer dizer agir sem responsabilidade, longe disso. O rock que durou não foi o rock caótico, foi o que tinha técnica escondida atrás da rebeldia. O Jimi Hendrix não tocava daquele jeito porque não sabia tocar guitarra direito. Ele sabia mais que quase todo mundo, e por isso conseguia quebrar regra com intenção. A liberdade dele vinha da competência, não da falta dela.

É mais ou menos essa lógica que eu tento aplicar quando ajudo um escritório a organizar o uso de IA por dentro. Você só se dá ao luxo de tocar antes de pedir licença quando entende o risco que está correndo. Um escritório que usa IA pra gerar minuta sem revisar cada citação não está sendo corajoso, está sendo descuidado. A diferença entre ousadia e irresponsabilidade é justamente esse domínio técnico por trás da decisão.

Vontade, disciplina e aquela conversa sobre controladoria

Aqui entra um assunto que ninguém espera ouvir junto com rock and roll: controladoria. Porque separar vontade de disciplina é o erro mais comum que eu vejo em projeto de IA, tanto em escritório quanto em empresa.

Vontade sem controle vira aquela banda que estoura no primeiro disco e some no segundo. Você já viu isso acontecer dezenas de vezes na música. Muita energia, pouca estrutura, e o sucesso vira ruína em menos de dois anos porque ninguém cuidou do que tinha por trás do show: contrato, remuneração, fluxo de caixa, previsibilidade.

Com IA dentro de escritório é igual. Eu vejo sócio empolgado assinando licença de três, quatro ferramentas diferentes, cada uma prometendo revolucionar a produtividade, sem nenhum controle sobre custo por usuário, uso real ou retorno. Isso é vontade pura, sem controladoria nenhuma. E vontade pura, cedo ou tarde, cobra a conta.

Controladoria, no sentido mais prático que existe, é o que transforma impulso em resultado que se sustenta. É a diferença entre a banda que roda o mundo por trinta anos e a que se apresenta uma vez e desaparece. Quando eu entro num projeto assim, a primeira pergunta quase nunca é “qual ferramenta vocês querem usar”. É “quanto vocês topam gastar por advogado, por mês, e como vão medir se está valendo a pena”. Sem essa resposta, a história vira festa de lançamento de disco sem plano nenhum pro dia seguinte, e eu já vi projeto grande travar exatamente nesse ponto bobo.

A protagonista mudou, o roteiro continua o mesmo

O que me chama atenção em 2026 é que a IA virou protagonista de um jeito que nenhuma outra tecnologia jurídica virou antes. Sistema de gestão processual, assinatura eletrônica, até o processo eletrônico, tudo isso teve seu momento de virada, mas nada mudou tão rápido o dia a dia do advogado quanto a IA generativa está mudando agora.

E como toda protagonista de peso, ela também incomoda quem está acostumado com coadjuvante discreto. Advogado gosta de controle. Gosta de saber exatamente o que está assinando, de onde veio cada argumento, de justificar cada vírgula numa petição. A IA generativa, por natureza, não entrega esse tipo de certeza. Ela entrega velocidade, entrega ponto de partida, entrega um primeiro rascunho que economiza horas. Mas não substitui o julgamento profissional, e quem trata como se substituísse está de novo confundindo ousadia com descuido.

O que eu ando recomendando na prática pros escritórios que atendo é simples de falar e difícil de sustentar sozinho no dia a dia: usar a IA com a mesma audácia de quem sobe no palco sem microfone e confia na própria voz, mas revisar cada resultado com a disciplina de quem confere contrato antes de assinar. As duas coisas precisam conviver. Uma sem a outra não segura.

É basicamente nesse ponto do meio que eu costumo entrar quando um escritório me chama. Não pra vender ferramenta, mas pra ajudar a montar esse equilíbrio entre coragem de testar e cuidado de não se machucar no caminho, seja com política de uso, com controle de custo ou com treinamento de time que realmente muda o dia a dia da equipe. Tem escritório que eu ajudo assim há anos, e o que eu mais ouço depois de um tempo de trabalho junto não é “agora usamos mais IA”, é “agora sabemos exatamente onde estamos gastando e o que isso está trazendo de volta”. É essa diferença que costuma justificar o investimento.

Se você é sócio ou gestor jurídico e sente que a sua equipe já está tocando essa música há um tempo sem ninguém ter ensaiado direito antes, vale conversar antes que o show saia mais caro do que precisava. Essa é literalmente a conversa que eu mais tenho tido ultimamente, e costuma começar simples, com um diagnóstico rápido de onde a IA já está sendo usada no escritório e onde falta estrutura por trás. É só me chamar, gustavo@gustavorocha.com ou gustavorocha.com.

O que fica desse dia do rock

Toda vez que 13 de julho chega eu penso menos no festival de 85 e mais no espírito que ele carrega: gente que resolveu fazer barulho antes de ter certeza se tinha permissão, mas que sabia exatamente o que estava fazendo enquanto fazia.

A inteligência artificial dentro da advocacia está vivendo esse mesmo momento agora. Quem fica esperando autorização plena, comitê perfeito e certeza absoluta antes de testar vai ficar pra trás, do mesmo jeito que ficaram pra trás as gravadoras que demoraram a entender o rock nos anos 1950. Mas quem usa sem disciplina, sem métrica, sem controladoria por trás da vontade, quebra tão rápido quanto qualquer banda que subiu no palco sem nunca ter ensaiado.

O equilíbrio está no meio, como quase sempre está. Vontade pra testar, coragem pra errar rápido, e controladoria suficiente pra que o erro vire aprendizado e não prejuízo. Isso não é romantismo de guitarra, é gestão de verdade.

Gustavo Rocha
Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico
OAB/RS e OAB/SP | CRA/RS 003799/O
gustavo@gustavorocha.com | gustavorocha.com

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