Outro dia fiquei parado num conto do Borges. Não é o tipo de coisa que você lê numa tarde qualquer e esquece. Fica. Fica naquele lugar que a gente não consegue nomear direito.
O conto é O Imortal, publicado em 1947. O enredo vai assim: um soldado romano chamado Marco Flamínio Rufo parte em busca de uma cidade mítica cujas águas dão a imortalidade. Ele encontra. Bebe. Torna-se imortal. E aí começa o problema.
Os imortais que habitam aquela cidade não estão vivendo. Estão vegetando. São criaturas nuas, silenciosas, encolhidas em grutas, indiferentes a tudo. Pararam de falar, de criar, de se mover com intenção. Um deles fica parado tanto tempo que um pássaro constrói ninho no seu peito. Borges explica o fenômeno com uma frase que não sai da cabeça: “A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens.”
Quando você tem tempo infinito, nada tem urgência. Quando nada tem urgência, nada tem valor. Quando nada tem valor, para que fazer qualquer coisa? Os imortais chegaram a uma conclusão perturbadora: tudo que existe em quantidade infinita deixa de importar. Inclusive a própria vida.
Fico pensando nisso quando olho para o ritmo que a inteligência artificial está impondo ao mundo.
Em 1997, quando entrei nesse mercado de tecnologia jurídica, o grande salto era ter um software que organizasse processos. Em 2007, era ter internet no escritório com velocidade decente. Em 2017, era falar em automação sem que as pessoas rissem de você. Hoje, em 2026, tenho conversas com advogados que usam IA para rascunhar petições, analisar contratos, montar relatórios e mapear riscos. E o que ouço com frequência é isso: “Gustavo, aprendo uma ferramenta hoje e em seis meses já está obsoleta.”
Verdade. Mas aí vem a pergunta que Borges me provoca: essa velocidade toda está nos fazendo viver mais ou menos?
A resposta honesta é que depende do que você faz com ela.
Tem gente usando IA para fazer mais em menos tempo, e com isso ganha espaço para o que importa: família, lazer, criatividade, descanso de verdade. Tem outra gente usando IA para fazer ainda mais coisas, encher o calendário, processar mais informações, produzir mais conteúdo, e no final do dia não sabe bem para quê. Esse segundo grupo está caminhando direto para o equivalente moderno dos imortais de Borges: tecnicamente mais capaz, mas cada vez mais vazio de sentido.
A tecnologia não te diz o que fazer com o tempo que ela libera. Essa parte é sua.
Tenho quase 30 anos nesse mercado. Uma coisa que aprendi errando bastante é que ferramentas mudam, mas pessoas não mudam tão rápido. O cliente que você conquistou com um trabalho bem feito em 2005 confia em você hoje pelo mesmo motivo: você era de confiança em 2005. Isso não aparece em nenhuma plataforma de IA. Não tem modelo que substitua anos de relacionamento genuíno.
Então quando alguém me pergunta o que faz com toda essa mudança acelerada, minha resposta guarda algo do que o conto de Borges sugere pelo avesso: não busque a imortalidade. Não tente estar em todo canal ao mesmo tempo, aparecer em toda plataforma, dominar toda ferramenta antes que ela mude. Isso é o caminho para a inércia disfarçada de produtividade.
Use a tecnologia para ter mais tempo. E depois use o tempo para ter mais vida.
No final do conto, Flamínio bebe acidentalmente de um rio que desfaz a imortalidade. Ele descreve assim o momento em que percebe que voltou a ser mortal: “Incrédulo, silencioso e feliz, contemplei a preciosa formação de uma lenta gota de sangue. De novo sou mortal, repeti a mim mesmo.”
Ele não ficou triste. Ficou feliz. Voltou a ser finito. Voltou a ter urgência. Voltou a sentir que as coisas têm valor.
Essa me parece a maior provocação que Borges faz para quem trabalha com tecnologia hoje. A imortalidade operacional, no sentido de nunca precisar parar, nunca precisar escolher, nunca precisar perder nada porque há sempre mais capacidade e mais ferramenta, essa imortalidade paralisa. A brevidade, o fato de que você não vai conseguir aprender tudo nem estar em todo lugar, é exatamente o que te obriga a escolher. E escolher é o que dá sentido.
O mundo da IA vai continuar acelerando. Não tem pausa prevista. As ferramentas que uso hoje provavelmente vão exigir revisão em dois anos. Mas o profissional que vai usar tudo isso bem não é o que correr mais rápido. É o que souber para onde está correndo.
Borges escreveu um conto no século XX sobre homens que conquistaram tudo e não sabiam mais o que querer. Leio isso em 2026 e vejo um aviso colado na tela.
Aproveite a vida. Use a tecnologia. Não inverta essa ordem.
Você pode ler o conto completo, gratuito e em português, aqui: O Imortal, de Jorge Luis Borges. https://entrecontos.com/2023/06/05/o-imortal-jorge-luis-borges/
Vale cada minuto. Especialmente porque você tem um número finito deles.
Gustavo Rocha
Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico
Especialista em Inteligência Artificial aplicada ao Direito e em Privacidade
Professor de Pós-Graduação e coordenador de grupos de estudos na ESA/RS
Membro de comissões da OAB/RS e OAB/SP
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