Teve um vídeo circulando essa semana que me deixou com um pé atrás. Um criador de conteúdo bem conhecido de inteligência artificial montou um carrossel contando como o Brasil venceu o Japão por 2 a 1 na Copa do Mundo. Se você não acompanha futebol, não tem problema, eu explico tudo com calma daqui a pouco. O que importa por enquanto é a ideia central do post: segundo ele, o Brasil não ganhou por sorte nem por talento dos jogadores. Ganhou porque um conjunto de inteligências artificiais estava, nos bastidores, guiando cada decisão da comissão técnica.
A lista de tecnologias citadas impressiona. Uma parceria entre a CBF, que é a confederação que administra o futebol brasileiro, e o Google Cloud. O Gemini, assistente de inteligência artificial do Google, supostamente respondendo perguntas sobre o cansaço muscular dos jogadores em tempo real. O TacticAI, do Google DeepMind, tratando cada jogador em campo como se fosse um ponto conectado numa rede neural. O Football AI Pro, criado pela FIFA em parceria com a Lenovo, gerando relatórios completos durante o intervalo do jogo. E uma empresa chamada Sportian Performance, processando o que o post chama de 3,5 milhões de pontos de dados a cada partida.
E o ápice da história, o momento mais emocionante do carrossel, é este: Casemiro, um dos jogadores mais experientes da seleção, estava jogando mal e visivelmente cansado no primeiro tempo. Mesmo assim, o técnico Carlo Ancelotti o manteve em campo. Segundo o post, essa decisão teria sido baseada em dados de inteligência artificial que apontavam Casemiro como peça chave da estratégia. O resultado, ainda segundo essa versão, foi que Casemiro cabeceou o gol de empate exatamente nos acréscimos do jogo, e o Brasil terminou vencendo.
É uma história bonita, com começo, meio e fim, tecnologia de ponta e final feliz. O problema é que, quando fui apurar cada detalhe com calma, encontrei uma quantidade de furos que não dá para ignorar. E esses furos importam muito mais para quem trabalha com direito e tecnologia do que parece à primeira vista, porque tocam num problema que também acontece dentro dos escritórios de advocacia.
Deixa eu te mostrar o que encontrei quando fui checar, ponto por ponto.
Primeiro, vamos entender o jogo de verdade
Antes de desmontar qualquer coisa, é importante você entender o que de fato aconteceu naquela partida, porque boa parte do problema do carrossel está justamente em contar essa história errado.
A Copa do Mundo de 2026 tem um formato novo, com 48 seleções, e o Brasil enfrentou o Japão na fase eliminatória conhecida como 16 avos de final, ou seja, a primeira rodada de mata mata depois da fase de grupos. O jogo aconteceu em Houston, nos Estados Unidos, no dia 29 de junho de 2026.
O Japão abriu o placar ainda no primeiro tempo, aproveitando um erro de passe do zagueiro brasileiro Danilo. O gol pegou a seleção brasileira de surpresa e o time entrou no intervalo perdendo, o que gerou bastante tensão entre torcedores e comentaristas.
No segundo tempo, veio a reação. Casemiro, volante experiente que também estava com cartão amarelo e visivelmente cansado, subiu para cabecear um cruzamento de Gabriel Magalhães e empatou o jogo. Isso aconteceu no começo do segundo tempo, não nos acréscimos como o carrossel afirma. Casemiro seguiu em campo até ficar exausto e foi substituído por Fabinho pouco depois do gol.
Quem realmente fez o gol da virada, esse sim nos minutos finais de acréscimo, foi Gabriel Martinelli. Foi ele quem definiu o placar em 2 a 1 e garantiu a classificação do Brasil para a próxima fase.
Percebe a diferença? O carrossel junta os dois gols numa coisa só, atribuindo a Casemiro um feito que, na verdade, foi de Martinelli. Pode parecer um detalhe pequeno para quem não gosta de futebol, mas é justamente esse tipo de erro básico que costuma denunciar quando uma história foi montada para impressionar, e não para informar com precisão. Se erraram algo tão fácil de checar quanto quem fez qual gol, faz sentido desconfiar do restante da narrativa. E tinha muito mais para desconfiar, como você vai ver agora.
As cinco tecnologias existem de verdade. A prova de que decidiram o jogo é que não existe
Aqui está o ponto que mais me interessa como consultor que trabalha todos os dias tentando separar o que é tecnologia real do que é só discurso bonito de vendas. Cada uma das cinco ferramentas citadas naquele carrossel existe de fato. Nenhuma foi inventada do zero, o que já seria mais fácil de desmontar. O problema é mais sutil que isso. Existir uma tecnologia não é a mesma coisa que ela ter sido comprovadamente usada, e ter sido usada não é a mesma coisa que ter sido decisiva para o resultado de um jogo específico. São três afirmações diferentes, com níveis de prova completamente diferentes, e é justamente nessa confusão que mora a armadilha do conteúdo viral.
Vou explicar cada uma, com calma, para quem não tem familiaridade com o assunto.
A parceria entre CBF e Google Cloud. Essa parceria existe mesmo e foi anunciada oficialmente em 10 de junho de 2026, apenas dezenove dias antes daquele jogo contra o Japão. Para quem não conhece o termo, Google Cloud é o serviço de computação em nuvem do Google, ou seja, um conjunto de servidores e ferramentas que empresas e organizações usam para armazenar e processar dados sem precisar manter seus próprios computadores gigantes. A ideia da parceria é criar o que se chama de data lake, um espaço centralizado onde ficariam guardados dados médicos dos jogadores, estatísticas de desempenho, histórico tático e observações técnicas de todos os atletas convocados. Esse repositório seria consultado através do Gemini, o assistente de inteligência artificial do Google, em linguagem natural, ou seja, você faria uma pergunta comum, do tipo conversa, e a ferramenta buscaria a resposta nesse banco de dados.
Até aqui, tudo parece impressionante. O detalhe que o carrossel esconde é que todo o material oficial de anúncio dessa parceria fala no futuro. As frases usadas são do tipo vai fornecer, vai gerar, poderá responder. Isso é linguagem de projeto em construção, não de ferramenta já rodando dentro do estádio enquanto Ancelotti decidia se tirava ou não o Casemiro de campo. É como anunciar a reforma de uma casa e, dezenove dias depois, alguém dizer que a família já está morando na piscina nova. Pode até acontecer no futuro, mas ainda não aconteceu.
O TacticAI. Essa é a minha tecnologia favorita da lista inteira, porque tem ciência de verdade por trás, publicada e revisada por outros pesquisadores, o que dá muito mais credibilidade do que qualquer anúncio de marketing. Foi desenvolvida pelo Google DeepMind, que é o laboratório de pesquisa em inteligência artificial do Google, em parceria com o Liverpool, um dos clubes mais tradicionais do futebol inglês. O trabalho foi publicado em 2024 na revista científica Nature Communications, uma das publicações mais respeitadas do mundo acadêmico.
O que ninguém do carrossel contou, e esse é um detalhe fundamental, é que essa versão do TacticAI que tem comprovação científica analisa escanteios, ou seja, aquela jogada de bola parada quando a bola sai pela linha de fundo e o time ataca reinicia o jogo do canto do campo. Ela não analisa o jogo aberto, correndo, com a bola em movimento livre pelo campo inteiro. É uma diferença enorme. Analisar um momento parado, com jogadores em posições relativamente previsíveis, é uma tarefa muito mais simples para um sistema de inteligência artificial do que acompanhar em tempo real um jogo inteiro se desenrolando.
Além disso, o número tão repetido de 90% de aprovação, usado para provar que a inteligência artificial era melhor que humanos, vem de um teste bem mais modesto do que parece. Foram cinco profissionais do próprio Liverpool avaliando as sugestões da ferramenta para escanteios, não um grupo amplo de especialistas espalhados pelo mundo, como o carrossel dá a entender.
Existe uma versão mais nova do TacticAI, essa sim tratando cada jogador como um nó de rede neural, um conceito que veio da matemática e da ciência da computação para representar cada elemento de um sistema como um ponto conectado a outros pontos, permitindo calcular relações entre eles. Essa versão nova promete prever jogadas com até oito segundos de antecedência e está sendo testada com o Palmeiras, clube brasileiro. Só que, até onde a pesquisa consegue confirmar, ainda não existe artigo científico publicado com resultados dessa versão nova. E, o mais importante para o nosso caso, não existe absolutamente nenhuma relação comprovada entre essa ferramenta e a seleção brasileira em campo numa Copa do Mundo.
O Football AI Pro. Criado pela FIFA, a entidade máxima do futebol mundial, em parceria com a fabricante de computadores Lenovo, esse também é real e foi apresentado publicamente num evento de tecnologia chamado Lenovo Tech World, em Las Vegas. Aqui tem um detalhe curioso que derruba boa parte da narrativa do carrossel: a própria FIFA deixa escrito, em sua comunicação oficial, que essa ferramenta é proibida durante o jogo ao vivo. Só pode ser usada antes e depois da partida, para preparação e para análise posterior. Além disso, o propósito declarado dessa ferramenta não é dar vantagem competitiva ao Brasil especificamente, é oferecer a mesma tecnologia, com o mesmo nível de acesso, para as 48 seleções que disputam a Copa, das mais ricas às mais modestas. É uma iniciativa de democratização de acesso a dados, pensada para nivelar o campo de jogo entre países com orçamentos muito diferentes, não um segredo de guerra exclusivo brasileiro.
A Sportian Performance. Essa empresa e sua tecnologia também existem de verdade, e o número de 3,5 milhões de pontos de dados processados por partida também confere com o que a própria empresa divulga. O problema é que essa ferramenta é usada pela seleção dos Estados Unidos, comandada pelo técnico argentino Mauricio Pochettino, e não tem relação nenhuma comprovada com a seleção brasileira.
Juntando tudo: são cinco tecnologias reais, com cinco anúncios oficiais que qualquer pessoa consegue confirmar numa pesquisa rápida, mas nenhuma evidência concreta de que qualquer uma delas estivesse de fato rodando e influenciando decisões durante aquele jogo específico entre Brasil e Japão. O carrossel pega peças verdadeiras e monta um quebra cabeça que, na imagem final, não corresponde à realidade.
O que realmente aconteceu com Casemiro, segundo quem estava lá
Aqui está o ponto que eu acho mais bonito da história de verdade, sem precisar inventar nem exagerar nada. Depois do jogo, Ancelotti concedeu entrevista coletiva e explicou, com suas próprias palavras, as escolhas que fez durante a partida. Ele falou sobre leitura de campo, um termo usado no futebol para descrever a capacidade de um treinador observar o desenrolar do jogo e ajustar sua estratégia com base no que está vendo ao vivo. Falou também sobre ter guardado Neymar no banco de reservas pensando numa eventual prorrogação, que no fim das contas não chegou a acontecer, porque o Brasil resolveu o jogo no tempo normal. Em nenhum momento da entrevista, em nenhuma frase, Ancelotti citou inteligência artificial, algoritmo, dado ou qualquer plataforma tecnológica.
A decisão de manter Casemiro em campo até ele praticamente desabar de cansaço foi dele, do treinador, apoiada em anos de experiência, na confiança que ele tem no jogador e na leitura da partida ali, ao vivo, na hora, com a pressão de um jogo eliminatório em cima.
Outro dado que o carrossel usa para reforçar a tese da inteligência artificial é a mudança na quantidade de cruzamentos do Brasil durante o jogo. Segundo estatísticas da Squawka, empresa especializada em dados esportivos, o Brasil fez doze cruzamentos no primeiro tempo e vinte e oito no segundo tempo. Cruzamento, para quem não é familiarizado com o termo, é quando um jogador que está pelas laterais do campo levanta a bola em direção à área adversária, na esperança de que um companheiro consiga finalizar de cabeça ou com o pé. É uma jogada tradicional do futebol, usada há décadas, muito antes de qualquer computador existir.
Essa mudança tática, de fato real e mensurável, tem uma explicação bem mais simples do que inteligência artificial. Ancelotti abriu o time pelos lados no segundo tempo, explorando a velocidade de Vinícius Júnior e Rayan perto da linha de fundo, justamente para aumentar o número de cruzamentos e criar mais chances de gol. É um ajuste tático clássico, do tipo que treinadores de futebol fazem há muito tempo, lido com os próprios olhos durante o intervalo e ao longo da segunda etapa, não sugerido por nenhum painel digital.
A tecnologia esportiva tem valor real e vai continuar crescendo nos próximos anos, disso eu não tenho dúvida nenhuma. O problema não está na tecnologia em si, está em dar a ela, especificamente nesse jogo, um crédito que ninguém jamais comprovou que foi dela.
Resumindo tudo que você acabou de ler: a IA não decidiu manter Casemiro em campo. Ancelotti decidiu. E entender essa diferença muda bastante coisa sobre como você deveria pensar o uso de inteligência artificial no seu próprio escritório, como você vai ver a seguir.
Isso tem nome, e você provavelmente já viu esse filme antes, só que em outro contexto
Esse hábito de inflar, ou até inventar, o quanto uma empresa ou uma equipe realmente usa inteligência artificial tem um nome técnico usado por reguladores e jornalistas especializados: AI washing, numa tradução livre, algo como maquiagem de inteligência artificial. Não é força de expressão minha, é um termo já consolidado no vocabulário de quem fiscaliza publicidade e mercado financeiro.
Um exemplo real e documentado: em 2024, a SEC, que é o órgão que regula o mercado de investimentos nos Estados Unidos, algo parecido com o que a CVM faz aqui no Brasil, multou duas empresas de investimento, chamadas Delphia e Global Predictions, em um total de quatrocentos mil dólares. O motivo foi que essas empresas diziam usar inteligência artificial de determinadas formas quando, na prática, simplesmente não usavam daquele jeito. O argumento do regulador foi direto: prometer uma tecnologia que não existe, ou que existe mas não faz o que se afirma publicamente, é uma forma de enganar o cliente, ponto final.
Aqui no Brasil também temos mecanismos de controle parecidos. O CONAR, conselho responsável por fiscalizar propaganda enganosa no país, já analisou casos do tipo, e a Justiça de São Paulo já condenou uma empresa que prometia ter a melhor ferramenta antifraude de inteligência artificial do mercado, mas a ferramenta simplesmente falhou justamente quando precisou funcionar de verdade.
O carrossel sobre o Brasil e o Japão não é uma peça de propaganda comercial, nasceu para gerar engajamento nas redes sociais, curtidas, comentários e compartilhamentos. Mas o mecanismo por trás é praticamente idêntico ao do AI washing comercial: pega um resultado real e emocionalmente envolvente, encontra tecnologias que existem por perto do fato, mesmo que sem relação direta comprovada, e costura uma narrativa de causa e efeito que ninguém jamais provou de verdade. É correlação vestida de causação, ou seja, duas coisas acontecendo ao mesmo tempo sendo apresentadas como se uma tivesse necessariamente causado a outra.
E olha, isso está longe de ser exclusividade de perfil de Instagram sobre futebol. É quase o mesmo discurso que muito escritório de advocacia e muita legaltech, empresa de tecnologia voltada para o mercado jurídico, usa para vender produto hoje em dia. Frases do tipo nossa inteligência artificial ganha causas, ou nossa ferramenta prevê o resultado do processo antes mesmo de você entrar com a ação. Quando você para com calma para desmontar esse tipo de frase, pedindo prova concreta e metodologia clara, sobra muito pouco de substância real por trás.
A ponte que interessa de verdade para quem trabalha com direito
E é aqui que a história do futebol vira lição prática para o seu escritório, mesmo que você nunca tenha assistido a um jogo de Copa do Mundo na vida.
No campo, quem toma a decisão final é o treinador. A inteligência artificial, quando existe de verdade e está de fato disponível, entrega informação, dado, sugestão. Ancelotti podia até ter três telas cheias de estatísticas na sua frente durante o jogo, mas quem olhou para Casemiro cambaleando de cansaço e decidiu confiar nele por mais alguns minutos foi um ser humano, com nome, sobrenome, currículo e responsabilidade pelo resultado daquela escolha específica.
No seu escritório de advocacia, ou no seu departamento jurídico, funciona exatamente da mesma maneira, só que com um peso legal ainda mais concreto. No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça, o CNJ, publicou a Resolução número 332 em 2020, atualizada depois pela Resolução número 615 em 2025, tratando especificamente do uso de inteligência artificial dentro do Poder Judiciário. O texto dessas resoluções trata a inteligência artificial como ferramenta de apoio à decisão, nunca como substituta da decisão humana propriamente dita. Isso significa, na prática, que um juiz pode usar um sistema de IA para organizar informações ou sugerir pontos de atenção num processo, mas quem assina a sentença, quem carrega a responsabilidade jurídica por aquele julgamento, continua sendo sempre a pessoa, nunca o sistema.
A Conselho Federal da OAB foi ainda mais direto no assunto através da Recomendação número 001, publicada em 2024, voltada especificamente para advogados. O texto afirma que a dependência excessiva de ferramentas de inteligência artificial é inconsistente com a prática da advocacia e não pode substituir a análise feita pelo próprio advogado. Está escrito assim, sem meio termo, sem espaço para interpretação dúbia.
E os tribunais brasileiros já estão cobrando isso na prática, não só deixando a recomendação guardada na teoria. Em fevereiro de 2026, a Sexta Turma do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo condenou uma empresa por litigância de má-fé, expressão jurídica que significa usar o processo judicial de forma desonesta ou irresponsável, depois que a defesa apresentada em juízo citou jurisprudência que simplesmente não existia, inventada por uma ferramenta de inteligência artificial generativa. O tribunal ainda enviou ofício para a OAB apurar a conduta do advogado responsável pela peça. O relator do caso foi taxativo ao rejeitar a tentativa da defesa de jogar a culpa nos estagiários que teriam efetivamente usado a ferramenta: segundo ele, a peça apresentada em juízo é ato privativo do advogado, e é o advogado quem responde pelo conteúdo que assina, tenha sido ele mesmo quem escreveu cada palavra ou tenha sido um sistema de inteligência artificial quem sugeriu o texto.
Esse não é um caso isolado, infelizmente. Casos parecidos, alguns resultando em multas de mais de oitenta mil reais, vêm se multiplicando no Brasil desde que ferramentas de inteligência artificial generativa, capazes de escrever textos inteiros a partir de um comando simples, passaram a fazer parte da rotina de quem produz peça jurídica no dia a dia.
O recado, no fim das contas, é sempre o mesmo, seja dentro de um estádio de futebol lotado ou dentro de uma sala de audiência silenciosa: dizer que a inteligência artificial errou não funciona como defesa. Nunca funcionou e, pelo visto, os tribunais estão cada vez menos dispostos a aceitar essa desculpa. A ferramenta pode errar, isso é absolutamente normal e esperado de qualquer tecnologia ainda em desenvolvimento. Mas quem responde pelo erro, sempre, é a pessoa que estava no comando da decisão final.
O que eu levo dessa história
Confesso que gostei de escrever esse artigo mais do que imaginava quando comecei a apurar os fatos. No fundo, ele fala de uma tentação que praticamente todo mundo que trabalha com tecnologia sente em algum momento da carreira: a de simplificar demais uma decisão complexa e bem tomada, jogando o crédito inteiro, ou a culpa inteira quando as coisas dão errado, nas costas de um algoritmo que, na maioria das vezes, teve participação bem menor do que se imagina.
Ancelotti fez uma leitura de jogo difícil, sob pressão real, com o time perdendo numa Copa do Mundo, e acertou a decisão. Isso é mérito de treinador experiente, formado ao longo de décadas dirigindo alguns dos maiores clubes do mundo, não mérito de plataforma na nuvem que sequer estava plenamente operacional naquela data. Se um dia a CBF publicar prova concreta e documentada de que a nova plataforma construída com o Google já estava de fato rodando ao vivo durante aquele jogo específico, e que ela efetivamente influenciou aquela decisão sobre Casemiro, eu revejo com prazer tudo o que escrevi aqui. Até que essa prova apareça, tratar essa história como fato consumado é irresponsabilidade de quem escreve, seja num carrossel de rede social feito para viralizar, seja numa petição protocolada em juízo.
Se você usa inteligência artificial no seu escritório, e acho que a essa altura do campeonato você já deveria estar usando pelo menos para tarefas mais simples, o conselho que eu deixo é simples e vale tanto para gestão de equipe quanto para produção de peça processual. Use a ferramenta para ganhar tempo, organizar informação dispersa e enxergar padrões que o olho cansado, depois de um dia inteiro de trabalho, já não consegue mais enxergar sozinho. Mas nunca esqueça, nem por um segundo, de quem é a assinatura que vai embaixo da decisão final. Porque quando o resultado sai errado, ninguém, nem cliente, nem juiz, nem a OAB, vai perguntar o que o algoritmo achou daquela situação. Vão perguntar o que você, profissional responsável, decidiu fazer com a informação que ele te mostrou.
E essa resposta, essa sim, tem que ser sempre sua.
Só que ter essa resposta pronta exige entender direito o que a ferramenta faz, onde ela ajuda e onde ela pode te colocar numa enrascada, e isso ninguém aprende só lendo anúncio de parceria tecnológica ou carrossel de rede social. Eu trabalho há mais de vinte anos na interseção entre gestão, tecnologia e advocacia, tempo suficiente para ver passar vários modismos e algumas poucas ferramentas que realmente entregam o que prometem. Se você quer implementar inteligência artificial no seu escritório sem cair nem no exagero nem no medo bobo, vale a pena conversar com quem já viu esse filme antes de apostar sozinho. Dei uma organizada nesse conhecimento todo em http://www.gustavorocha.ia.br, caso você queira dar uma olhada.
Vamos juntos pra cima da Noruega!
Gustavo Rocha
Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico
Especialista em Inteligência Artificial aplicada ao Direito e em Privacidade
Professor de Pós-Graduação e coordenador de grupos de estudos na ESA/RS
Membro de comissões da OAB/RS e OAB/SP
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