Em 20 de maio de 2026, o Tribunal de Justiça de São Paulo lançou o projeto IA TJSP, com um slogan direto: julgar rápido, julgar muito, julgar bem.
Foi na sessão do Órgão Especial. O presidente do tribunal, desembargador Francisco Loureiro, conduziu a apresentação pessoalmente. As ferramentas já estão disponíveis para magistrados e servidores na intranet.
Tem coisa aqui que os advogados precisam entender logo.
O que o TJSP colocou no ar
O projeto reúne ferramentas de IA integradas ao fluxo dos gabinetes. Não é piloto, não é teste. Está em funcionamento.
Transcreve TJSP converte gravações de audiências em texto automaticamente. Horas de áudio que um servidor digitava à mão viram texto em minutos.
Apoia faz anonimização de dados nos processos, importante para LGPD e para circulação de peças entre sistemas.
Jurisprudência GPT pesquisa o acervo dos tribunais superiores e indica as decisões usadas como referência. Funciona integrado ao Microsoft Teams. O juiz pode consultar o sistema enquanto redige a sentença.
Gerador de Ementas produz ementas a partir do conteúdo das decisões.
Promptus é um banco nacional de prompts, uma biblioteca de comandos testados para uso pelos magistrados nos sistemas de IA.
Tem ainda tutoriais de proteção de dados, criação de analistas digitais e materiais de capacitação para escrever prompts mais eficientes.
Então a IA vai julgar? O que a notícia diz e o que eu acho
A resposta oficial é não. O presidente do TJSP foi claro na apresentação: “A Inteligência Artificial nunca substituirá a análise da prova, que sempre será do juiz.” A Resolução CNJ 615/25, que regulamenta o uso de IA nos tribunais, proíbe expressamente que ela seja usada para tomada de decisões. Revisão humana é obrigatória em todo o fluxo.
Isso é o que está documentado hoje.
Mas, na minha opinião, isso provavelmente vai mudar. Não amanhã, e não de uma vez. Mas o caminho está sendo percorrido nessa direção e seria ingenuidade não ver isso.
Toda grande transformação tecnológica começa com a mesma afirmação: “é apenas um apoio, o humano ainda decide.” Calculadoras eram apoio. GPS era apoio. Sistemas de diagnóstico médico por imagem eram apoio. Hoje essas ferramentas tomam decisões que humanos simplesmente homologam. O padrão se repete.
A IA jurídica já transcreve audiências, pesquisa jurisprudência, gera ementas. O próximo passo natural, empurrado pela pressão de um volume de processos que nenhum judiciário humano consegue absorver em tempo razoável, é que ela comece a sugerir dispositivos de decisão. Depois a redigir minutas completas. Depois, em processos padronizados onde não há controvérsia de fato relevante, a decidir diretamente, com um juiz assinando por cima.
Pode levar cinco anos. Pode levar quinze. A direção está dada.
E o ponto prático para o advogado é justamente esse: não importa em qual cenário você acredita. Se a IA vai apenas apoiar o juiz ou se vai eventualmente julgar em determinados tipos de processo, a preparação necessária é a mesma. O ambiente já mudou, e quem não se mover agora vai chegar atrasado nos dois casos.
Pensa assim: você entra numa reunião e o seu interlocutor, antes de você falar uma palavra, já leu um resumo de tudo que você disse antes, pesquisou a jurisprudência relevante e separou os pontos fracos do seu argumento. Ele ainda toma a decisão. Mas chegou num nível completamente diferente.
É isso que já está acontecendo nos gabinetes paulistas. E vai se espalhar.
Por que isso muda o dia a dia do advogado
As petições vão passar por IA antes de chegar ao juiz. Ferramentas de resumo e triagem já existem em vários tribunais pelo país. Um texto mal estruturado, com argumentos enterrados em parágrafos longos, corre o risco de ter seus pontos centrais mal capturados pelo sistema.
A pesquisa de jurisprudência do adversário agora é imediata. Com o Jurisprudência GPT integrado ao Teams, o juiz consegue verificar em segundos se a tese que o advogado está apresentando tem sustentação nos tribunais superiores. Argumentos mal embasados ficam mais expostos do que nunca.
O que é dito em audiência vai ser registrado com precisão. A transcrição automática acaba com a imprecisão do registro manual. Aquela fala casual, feita contando com a subjetividade do escrivão, agora vira texto exato. O que é dito em audiência vai importar mais.
O volume de decisões vai aumentar. E esse é o ponto central do projeto. O TJSP tem um acúmulo histórico de processos. Com IA como apoio, a capacidade de processamento cresce. Para os advogados, isso pode significar menos espera, mas também menos tolerância com peças de baixa qualidade que travem o fluxo.
Algumas coisas curiosas sobre IA no direito
O TJSP não está sozinho nisso. O movimento é global e tem aspectos que vale conhecer.
Nos Estados Unidos, o sistema Westlaw Edge, da Thomson Reuters, já usa IA para identificar precedentes e analisar a força de argumentos em tribunais específicos. Escritórios que usam essas ferramentas conseguem preparar peças com um nível de detalhamento que levaria dias de pesquisa manual.
Na China, o tribunal online de Hangzhou usa IA para conduzir etapas de processos simples de comércio eletrônico desde 2017. O contexto legal é completamente diferente do brasileiro, mas o ritmo de adoção diz alguma coisa sobre para onde isso vai.
Aqui no Brasil, o CNJ tem o Radar CNJ, sistema de monitoramento de metas com IA, e a Resolução 615/25 é parte de uma política nacional de regulação do tema. O judiciário brasileiro está se movendo de forma coordenada, não improvisando.
Um detalhe técnico que poucos sabem: IA de linguagem como a usada nesses sistemas não “pensa” no sentido humano. Ela encontra padrões estatísticos em texto. Isso a torna muito boa em identificar argumentos parecidos com os que foram aceitos antes, e bem menos confiável em casos genuinamente novos, sem precedente direto. Saber disso ajuda a entender onde confiar na ferramenta e onde ser mais cuidadoso.
Outro dado que chama atenção: prompt engineering, a habilidade de escrever comandos eficientes para sistemas de IA, já aparece em descrições de vaga de estágio no Brasil. O TJSP montou um banco inteiro de prompts para os magistrados. Isso não é detalhe técnico. É sinal do que está sendo valorizado e do que vai fazer diferença nos próximos anos.
Prepare-se para os dois cenários
O judiciário paulista disse, em sessão oficial, que quer julgar mais, mais rápido e melhor com IA. Independente do que você pensa sobre isso, o processo já está em movimento e não tem volta.
Se você acredita no cenário conservador, aquele em que a IA vai apoiar o juiz e ele vai continuar decidindo, você ainda precisa saber escrever para sistemas que processam texto antes do magistrado ler, entender como seu argumento será lido por algoritmos e preparar sua equipe para esse novo fluxo.
Se você acredita no cenário mais agressivo, que é o que eu acho que vai acontecer ao longo dos próximos anos, a necessidade é ainda maior. Advogados que entenderem como esses sistemas funcionam, onde erram e como se comunicar bem com um ambiente onde a IA participa das decisões vão defender muito melhor seus clientes do que quem nunca se perguntou sobre isso.
Os dois cenários pedem a mesma coisa: movimento agora.
A jornada de adaptação ao uso da IA no direito tem várias camadas. Entender as ferramentas disponíveis. Saber como escrever peças que funcionem bem nesse novo ambiente. Treinar a equipe para usar IA como apoio, não como ameaça. Estruturar o uso interno de IA no escritório de forma segura e eficiente. Acompanhar as mudanças regulatórias que ainda vão chegar. Nada disso precisa ser feito de uma vez, mas precisa começar.
Escritórios que entenderem essa transição antes dos concorrentes vão ter uma vantagem real. Não porque vão usar IA para fazer o trabalho por eles, mas porque vão saber navegar num ambiente onde a inteligência artificial já é parte oficial do processo antes de o juiz abrir o primeiro parágrafo.
Essa jornada não precisa ser percorrida sozinho
Se você chegou até aqui, provavelmente já entendeu que a questão não é mais se vai precisar lidar com IA no exercício da advocacia. A questão é como fazer isso de forma estratégica, sem se perder em ferramentas que prometem muito e entregam pouco, sem treinar a equipe de forma superficial e sem deixar passar as mudanças regulatórias que vêm aí.
É exatamente nessa jornada que trabalho. Através da Consultoria Gustavo Rocha, acompanho escritórios de advocacia e profissionais jurídicos na implantação de IA com estratégia: desde a escolha e configuração das ferramentas certas até o treinamento das equipes, o ajuste da comunicação e o posicionamento do escritório nesse novo cenário. Já realizei palestras e imersões sobre IA aplicada ao direito para bancas, instituições e eventos da área jurídica.
Cada escritório tem uma realidade diferente, um nível diferente de maturidade tecnológica e objetivos distintos. O trabalho é sempre personalizado e direto ao ponto.
Se quiser conversar sobre onde o seu escritório está nessa transição e o que faz sentido como próximo passo, é só falar. Acesse gustavorocha.com ou entre em contato pelo e-mail gustavo@gustavorocha.com.