Ferramentas de IA com foco no Direito: o que mostrei na aula inaugural da parceria AGTU e OAB/PR

Na noite de 03 de março de 2025, tive a satisfação de conduzir a aula inaugural do curso “Inteligência Artificial Aplicada ao Direito”, fruto da parceria entre a American Global Tech University (AGTU), a ESA/PR e a OAB Paraná.

📌 A live completa está no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=5v_1bb-7mTk

Assista:

📌 O site de apoio usado na aula (feito com IA): https://iaesapr.manus.space

Foram mais de duas horas de conteúdo prático, direto ao ponto, com foco no que realmente interessa para quem está no dia a dia do escritório: produtividade com segurança, sem “mística” e sem promessas vazias.

Eu costumo dizer que IA no Direito não é sobre “fazer texto bonito”. É sobre organizar trabalho, reduzir retrabalho e melhorar a clareza das decisões. E, acima de tudo, é sobre fazer isso sem criar risco desnecessário para o cliente e para o próprio advogado.

1) Por que eu comecei a aula sem slides e com um site feito por IA

Eu poderia ter feito uma apresentação tradicional. Mas eu preferi começar com uma provocação prática: usar a própria IA para criar o material da aula.

O site que eu disponibilizei como apoio foi construído por IA e serviu como trilho de aprendizagem durante a live. A ideia era simples: enquanto eu demonstrava ferramentas, a turma tinha um espaço organizado para acompanhar, copiar, testar e revisitar depois.

Isso muda a dinâmica da aula por dois motivos:

  1. Tira a IA do campo teórico e coloca no campo de “entrega real”.
  2. Mostra que IA não é só conversa e texto: ela pode ser estrutura, produto, método.

No mundo jurídico, onde a gente vive entre urgência e complexidade, ter um material assim não é perfumaria. É ganho de tempo, padronização e clareza.

2) O ponto de partida que muita gente ignora: compliance não é opcional

Antes de falar de qualquer ferramenta, eu fiz questão de começar pela base.

A advocacia trabalha com:

  • informações sensíveis
  • dados estratégicos
  • documentos que envolvem patrimônio, vida, reputação
  • e, em muitos casos, segredo de justiça e sigilo contratual

Então não faz sentido usar IA como se fosse um brinquedo.

O ponto mais crítico que eu destaquei é que muita gente usa IA sem entender como os dados podem ser tratados pela ferramenta. E isso não é um detalhe técnico, é um risco real.

Na aula, eu mostrei como ajustar configurações de privacidade e expliquei a lógica por trás disso: se você quer trabalhar com IA como profissional, precisa de uma camada mínima de governança.

Não precisa ser complexo: às vezes uma política simples resolve 80% do risco. O que não dá é deixar “no automático”.

3) As ferramentas demonstradas: o que cada uma resolve, na prática

Eu organizei a aula como um “stack” de trabalho. Eu não acho inteligente apostar numa ferramenta única para tudo, porque cada ferramenta tem um ponto forte e um ponto fraco. O que funciona no escritório é combinação com critério.

3.1 ChatGPT: o mais popular, mas não trate como piloto automático

O ChatGPT é, para muitos, a porta de entrada. Então eu mostrei usos práticos e também limites.

No escritório, ele costuma ajudar muito em:

  • estruturação de raciocínio e tópicos
  • refinamento de textos (clareza, organização, linguagem)
  • revisão de argumentos e contra-argumentos
  • criação de roteiros de atendimento e comunicação com cliente

Mas eu fui bem direto: não é ferramenta para colar conteúdo sensível sem pensar. E não é ferramenta para “substituir a leitura” do advogado.

O melhor uso do ChatGPT é quando ele vira um acelerador de etapas, e não um substituto da responsabilidade.

3.2 Gemini e o ecossistema Google: quando integração vira produtividade de verdade

Aqui o ponto não foi discutir “qual é o mais inteligente”, e sim “qual se encaixa melhor no fluxo do escritório”.

O diferencial do Gemini aparece quando você trabalha dentro de um ecossistema de documentos, rotinas e organização, porque ele tende a conversar melhor com esse contexto.

Se a pessoa trabalha em ambiente Google, isso pode ser um ganho grande — especialmente para quem quer eficiência na triagem de conteúdo e na organização.

3.3 NotebookLM: o caderno inteligente que muda a forma de estudar, analisar e explicar

O NotebookLM foi uma das ferramentas que mais chamou atenção na aula porque ele muda a lógica do trabalho.

Ele não é “mais um chat”. Ele é um ambiente de estudo e síntese.

Na prática, o que eu demonstrei foi como ele pode ajudar a:

  • transformar um conjunto grande de documentos em um resumo estruturado
  • montar mapa mental e linha de raciocínio
  • organizar pontos-chave, teses, riscos e pendências
  • gerar explicações em formatos diferentes (útil demais para atendimento)

Isso é muito relevante no Direito porque volume de informação é regra, não exceção.

Quando você usa IA só para “perguntar coisas”, você aproveita pouco. Quando você usa IA para organizar material e construir entendimento, você ganha tempo e melhora a qualidade da decisão.

4) Manus: quando a IA deixa de ser texto e vira produto

Eu também trouxe uma ferramenta com outro perfil: a Manus.

O motivo é simples: tem gente que acha que IA serve só para escrever. E, na prática, o salto acontece quando o advogado entende que IA pode gerar:

  • sites internos de apoio
  • bases de conhecimento
  • trilhas de treinamento
  • materiais de onboarding
  • sistemas simples para padronizar rotinas

O site da aula é um exemplo disso: IA como “motor de estrutura”.

5) Claude CoWork: o destaque da noite (e por quê)

Se eu tivesse que escolher uma ferramenta para representar o espírito da aula, seria o Claude CoWork.

O que mais me interessa nele é a mudança de postura: ele sai do modo “conversa” e entra no modo “trabalho”.

5.1 CoWork como assistente de operação (não só de texto)

Na prática, eu mostrei o CoWork como ferramenta de execução. E isso faz diferença no escritório porque escritório é operação:

  • arquivo
  • pasta
  • documento
  • modelo
  • revisão
  • controle

Uma IA que ajuda nisso pode transformar rotina, principalmente onde existe:

  • acúmulo de documentos
  • bagunça histórica de pastas
  • falta de padronização de nome/versão
  • dependência de pessoas específicas para “achar as coisas”

5.2 Organização inteligente de arquivos: o problema invisível que come horas do escritório

Eu demonstrei como esse tipo de ferramenta pode ajudar a propor estruturas mais organizadas, com lógica e separação melhor.

Isso não é “frescura”. É produtividade.

É o tipo de coisa que reduz:

  • retrabalho
  • erro por uso de versão errada
  • tempo perdido procurando anexo
  • estresse bobo que drena energia

5.3 O cuidado mais importante: permissões e governança

Aqui eu fui bem explícito: ferramentas que interagem com arquivos precisam de permissão. E permissão não pode ser dada sem critério.

A regra que eu recomendo é simples:

  • permissão mínima
  • autorização consciente
  • e controle por tarefa, não “liberação total”

Quem dá acesso amplo demais cria risco. E em escritório, risco vira custo.

6) Markdown: o detalhe simples que melhora petição, clareza e leitura automatizada

Outro ponto prático que eu trouxe na aula foi o uso de Markdown.

Eu gosto de explicar sem complicar: Markdown é um jeito simples de estruturar texto:

  • títulos
  • listas
  • seções
  • pedidos organizados
  • hierarquia visível

Isso melhora:

  1. a leitura humana (juiz, assessor, colega, cliente)
  2. a organização do raciocínio
  3. a forma como a IA processa e devolve o conteúdo

No fim, é uma técnica pequena, mas com efeito grande.

7) Prompt não é frase mágica. É método.

Eu também reforço isso porque é um erro comum: a pessoa acha que “o segredo” está numa frase mágica.

Não está.

Prompt bom é:

  • contexto
  • objetivo
  • restrição
  • formato de saída
  • e, quando necessário, fonte e padrão

Quando você aprende isso, você deixa de “brigar com a ferramenta” e começa a usar de forma previsível.

8) Minha recomendação final: escolha uma IA e aprofunde, em vez de correr atrás de todas

Se tem um conselho que eu queria que ficasse de verdade daquela noite é este:

Escolha uma IA generativa e aprofunde-se nela.

O mercado muda diariamente. Se você tentar acompanhar tudo, você se frustra.

O que funciona no mundo real é:

  • dominar uma ferramenta principal
  • combinar com uma ferramenta de estudo e organização (como o NotebookLM)
  • e construir um processo interno com segurança

A advocacia não vai “acabar” por causa da IA. Mas a advocacia vai mudar muito para quem aprender a usar essas ferramentas com critério.

IA não substitui advogado.

Mas advogado que sabe usar IA ganha consistência, velocidade e qualidade. E isso muda o jogo.

Gustavo Rocha

Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico

Especialista em Inteligência Artificial aplicada ao Direito e em Privacidade

Professor de Pós-Graduação e coordenador de grupos de estudos na ESA/RS

Membro de comissões da OAB/RS e OAB/SP

Site: http://www.gustavorocha.com | E-mail: gustavo@gustavorocha.com

WhatsApp/Telegram: (51) 98163.3333 

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.