Quem me acompanha sabe que eu bato na mesma tecla há anos: gestão sem dados é apenas palpite. E se você ainda acha que o Super Bowl é “apenas” o maior evento esportivo do mundo, você está olhando para o lado errado da moeda.
Li recentemente uma matéria no IT Forum sobre como o Allegiant Stadium se transformou em um verdadeiro laboratório de dados durante o evento. O título não poderia ser mais preciso: “No Super Bowl, cada passo vira dado e cada dado uma decisão”
Essa frase deveria estar na parede de todo escritório de advocacia e de toda empresa que pretenda sobreviver à década de 2020. Vamos dissecar o que esse espetáculo de tecnologia nos ensina sobre os quatro pilares que eu sempre defendo: Gestão, Tecnologia, Marketing e Inteligência Artificial.
1) Gestão: sair do “achismo” e entrar na previsibilidade
No artigo, a lógica é bem objetiva: dados confiáveis e em tempo real reduzem incerteza. E quanto menor a incerteza, melhor a decisão.
Na prática, gestão muda assim:
- Antes: você descobre o problema no relatório do mês
- Depois: você identifica o problema quando ele nasce (e corrige pequeno)
O executivo citado é direto: o valor não está só em “capturar dado”, mas em sustentar a operação com consistência do início ao fim, porque ali a margem de erro é praticamente zero.
Exemplo prático no jurídico (bem pé no chão)
Pensa num escritório com 3 mil prazos/mês.
Cenário comum (sem “dados vivos”)
- o time sente que está “apertado”
- começam atrasos pontuais
- alguém percebe quando o cliente reclama
- aí vira corrida e retrabalho
Cenário com gestão orientada a dados
- você acompanha “tempo médio até triagem”, “tempo até primeira minuta”, “tempo até protocolo”, “picos por tipo de demanda”
- quando uma etapa começa a atrasar, você enxerga no dia, não no mês
- você redistribui carga, ajusta fluxo, e evita o efeito dominó
Isso é exatamente a troca que o texto descreve: problemas deixam de ser descobertos tarde e passam a ser identificados quando surgem.
2) Tecnologia: sensor é só a pontinha do iceberg (o resto é arquitetura)
O artigo detalha que não é só “medir”. Existe um pipeline robusto: sincronização temporal, validação de integridade e processamento para reduzir ruídos e interferências.
E reforça um ponto que pouca gente valoriza: o que sustenta tudo não é só velocidade, é redundância (monitoramento constante, contingência, controle de acesso).
Exemplo prático no escritório: “dados de processo” vs “dados confiáveis”
Você pode ter um software jurídico com vários campos. Mas…
- Se cada advogado lança de um jeito
- Se o motivo de encerramento é “outros” em 70% dos casos
- Se o tempo não é registrado de forma consistente
- Se integrações quebram e ninguém percebe
Você até tem “dados”. Só que eles não viram decisão boa. Viram ruído.
Tradução do Super Bowl pro escritório:
- padronizar cadastro e etapas (o mínimo do mínimo)
- automatizar validação (campos obrigatórios, regras simples)
- garantir rastreabilidade (quem alterou o quê, quando)
- plano B quando o sistema cai (e isso acontece)
O texto é bem honesto: implementar sensores é simples; transformar processos, menos.
3) Marketing: o “replay” são as métricas vaidosas; os “padrões” são estratégia
A frase “o sistema vê padrões” serve como luva pro marketing.
Muita gente vive no replay:
- curtidas, alcance, seguidores, tráfego
Mas o que paga boleto são os padrões:
- qual conteúdo gera conversa séria
- qual canal traz lead com perfil
- onde a jornada trava
- qual argumento reduz objeção
E o artigo mostra um ponto importante: hoje o jogo é de dados contextualizados que viram insights acionáveis rapidamente.
Exemplo prático: marketing jurídico sem romantismo
Imagine que você posta muito e até cresce. Mas não sabe:
- quanto tempo o lead demora para responder
- quantos atendimentos viram reunião
- quantas reuniões viram contrato
- quais áreas dão melhor LTV (valor do cliente ao longo do tempo)
O “padrão” aqui é o funil real e o comportamento real.
Quando você mede isso, você para de “produzir conteúdo” e começa a otimizar aquisição e conversão.
4) IA: sem dado bom, IA é só fumaça bonita
O texto diz que a evolução mais perceptível não foi só técnica, mas operacional: sair de “métrica bruta” para dado contextualizado que vira insight acionável.
Isso é a base da IA útil.
Porque IA (especialmente com modelos e agentes) depende de:
- qualidade
- contexto
- consistência
- governança
Exemplo prático: IA no contencioso (do jeito certo)
Vamos comparar dois usos:
Uso “modinha”
- jogar PDFs no chat e pedir “resuma”
- resultado: bom texto, mas risco alto de omissão, inconsistência e falta de padrão
Uso profissional
- estruturar o caso em dados: tema, pedido, valor, tese, prova-chave, risco, prazo, tribunal, fase
- alimentar a IA com um “pacote” padronizado
- pedir: “gere minuta com base no template X, citando os fatos A/B/C, e check-list de riscos”
- conferir, ajustar e registrar o aprendizado
A IA vira copiloto de produção e revisão, e não um “oráculo”.
E aqui entra um detalhe do artigo que eu acho precioso: em ambiente crítico, além de rapidez, precisa controle de acesso e resiliência.
No nosso mundo: LGPD, sigilo, governança de quem vê o quê, logs, e política de uso.
Privacidade importa.
5) Do estádio ao armazém… e do armazém ao escritório
O artigo faz um paralelo direto com centros de distribuição: a pergunta muda de “onde está o jogador?” para “onde está o pallet, qual lote saiu da rota, qual equipamento está ocioso?”.
No escritório, a pergunta vira:
- onde está a peça travada?
- qual etapa está virando gargalo?
- quais casos geram mais retrabalho?
- qual cliente está ficando sem retorno no tempo esperado?
- onde o time está gastando energia que não aparece no resultado?
É o mesmo princípio: visibilidade em tempo real para eliminar pontos cegos.
6) Um “mini roteiro” pra aplicar isso em 30 dias (sem virar projeto infinito)
Se eu fosse colocar isso em prática de forma pragmática, eu faria assim:
Semana 1: escolher 5 indicadores que mandam no jogo
Exemplos:
- tempo de resposta ao cliente (primeiro retorno)
- tempo de triagem
- taxa de retrabalho (devolução de minuta)
- prazo estourado por fase
- conversão atendimento → reunião → contrato (se tiver marketing ativo)
Semana 2: padronizar o mínimo no sistema
- campos obrigatórios essenciais
- etapas com nomes claros
- motivo de encerramento sem “outros” genérico
- rotina de auditoria leve (15 min/semana)
Semana 3: automações simples
- alertas de gargalo
- alertas de prazo por fase
- tarefas recorrentes para “limpeza” do dado
Semana 4: colocar IA onde dói mais
- triagem e classificação
- checklists de risco
- rascunhos de peças padronizadas
- revisão de coerência e completude (com checklists)
Fechando: o debate deixou de ser “hardware”; é visibilidade virando execução
O artigo fecha exatamente nisso: o valor hoje não está apenas no sensor, mas em transformar visibilidade em execução.
E essa é a frase que eu levaria pra qualquer equipe:
Dado sem decisão é estatística.
Decisão sem execução é reunião.
Execução com dado bom vira crescimento.
Reflexão Final
O que o IT Forum nos mostra sobre o Super Bowl é um espelho do futuro (que já chegou). Não importa se você vende ingressos de 10 mil dólares ou serviços de consultoria. O ciclo é o mesmo: Capturar o dado (Tecnologia), entender o comportamento (Marketing), processar com inteligência (IA) e agir com precisão (Gestão).
O seu negócio está pronto para o “Kickoff” ou você ainda está preso no analógico, esperando o jogo acabar para saber o placar?
O dado é o novo petróleo, mas o refinamento é a sua capacidade de gestão.
Pense nisso.
Gustavo Rocha
Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico
Especialista em Inteligência Artificial aplicada ao Direito e em Privacidade
Professor de Pós-Graduação e coordenador de grupos de estudos na ESA/RS
Membro de comissões da OAB/RS e OAB/SP
Site: http://www.gustavorocha.com | E-mail: gustavo@gustavorocha.comWhatsApp/Telegram: (51) 98163.3333