“Qual inteligência artificial devo contratar para o meu escritório?”
A pergunta parece simples. Até começarmos a olhar para o que acontece entre a chegada de um e-mail, a análise de um contrato, uma reunião com o cliente e a entrega do trabalho.
Onde estão os documentos? Qual versão está atualizada? Quem pode acessar cada informação? Quanto tempo a equipe perde procurando algo que já deveria estar organizado?
Essas respostas interferem diretamente no resultado que a inteligência artificial pode entregar.
A discussão proposta no vídeo “Claude ou Copilot? Qual faz mais sentido para a rotina do seu escritório?”, referência dos dois textos que deram origem a este artigo, ajuda a colocar essa escolha no contexto da advocacia.
Assista na íntegra:
Se não abrir, acesse https://www.youtube.com/watch?v=8ceFWMhW-c8
Temos ferramentas capazes de apoiar análises, produzir textos, organizar informações e reduzir tarefas repetitivas. Mas precisamos entender onde elas entram na operação e quais condições existem para utilizá-las.
Assinar uma plataforma leva poucos minutos. Fazer essa assinatura melhorar o trabalho exige algumas decisões.
O escritório trabalha onde?
Observe um dia comum da sua equipe.
As conversas estão no Outlook? As reuniões acontecem no Teams? Os documentos ficam no Word, no OneDrive e no SharePoint?
Nesse cenário, faz sentido avaliar o Microsoft 365 Copilot pela proximidade com os aplicativos que as pessoas já utilizam. Os recursos disponíveis, porém, dependem da assinatura, da licença e das configurações da organização. Ter um botão chamado Copilot na tela não significa ter acesso a todas as possibilidades apresentadas em uma demonstração. A própria Microsoft diferencia essas condições em sua documentação sobre licenças.
Essa integração merece atenção porque o custo de uma tarefa também está no caminho percorrido para realizá-la.
Abrir um sistema, localizar o arquivo, copiar o conteúdo, levar para outra ferramenta e depois devolver o resultado ao lugar correto consome tempo. Quando esse percurso pode ser reduzido com segurança, existe uma oportunidade de ganho.
Já o Claude pode ser avaliado em atividades como leitura de documentos, comparação de versões, organização de argumentos e preparação de relatórios. Seus projetos permitem reunir materiais de referência e instruções para orientar o trabalho, conforme explica a documentação da Anthropic.
Imagine reunir um modelo de relatório aprovado, critérios de análise contratual e orientações de linguagem. Isso oferece uma base mais consistente do que começar cada conversa explicando novamente como o escritório trabalha.
Ainda assim, nenhuma dessas características resolve sozinha a escolha.
Uma demonstração impressionante mostra uma possibilidade. O teste com a sua rotina mostra se ela serve para o seu escritório.
Um contrato antigo continua antigo dentro da IA
Pense naquela pasta com os arquivos “contrato_final”, “contrato_final2” e “contrato_final_agora_vai”.
Quem trabalha ali talvez saiba qual deles vale. Talvez.
Ao utilizar inteligência artificial, essa indefinição passa a afetar também o material produzido pela ferramenta. Se a análise partir de uma versão superada, o texto poderá parecer excelente e carregar uma premissa errada desde o início.
Por isso, vale estabelecer critérios básicos: identificar versões, definir responsáveis pela atualização e manter modelos aprovados em locais conhecidos pela equipe.
O mesmo cuidado se aplica às instruções.
Se o escritório não definiu o que considera uma cláusula de risco, a IA terá de trabalhar com critérios genéricos ou tentar deduzir o que se espera dela. Depois alguém precisará corrigir essa distância.
Quanto mais claro estiver o padrão interno, melhores serão as condições para orientar e conferir o resultado.
Quem pode encontrar os documentos financeiros dos sócios?
Essa pergunta deveria ser respondida antes de conectar uma ferramenta aos arquivos do escritório.
A Microsoft informa que o Copilot respeita as permissões existentes no ambiente corporativo. Isso torna a configuração dos acessos uma parte essencial da implantação: uma informação compartilhada com pessoas demais poderá ficar mais fácil de localizar por quem já tinha acesso a ela. Veja a política de proteção empresarial de dados da Microsoft.
Imagine documentos financeiros disponíveis em uma pasta aberta para toda a equipe. Ou arquivos de clientes mantidos em links de compartilhamento que ninguém revisa há anos.
A fragilidade já existe. A capacidade de pesquisar e relacionar informações pode ampliar seu alcance.
Revisar acessos, portanto, precisa fazer parte do projeto. Cada profissional deve conseguir consultar o necessário para sua atividade, com critérios definidos para informações restritas.
Pagar a assinatura não encerra a conversa sobre privacidade
Há uma simplificação que merece cuidado: considerar toda ferramenta gratuita inadequada e toda ferramenta paga automaticamente segura.
O tratamento dos dados depende do produto, do plano, da conta, das configurações e dos termos aplicáveis.
Nas ofertas comerciais abrangidas por suas políticas, Microsoft e Anthropic informam que os dados utilizados não são empregados para treinar os modelos de base nas condições descritas por cada fornecedor. A Anthropic, por exemplo, estabelece essa regra por padrão para seus produtos comerciais e prevê situações específicas, como autorização ou feedback. Essas condições estão nas políticas de proteção empresarial da Microsoft e de uso de dados da Anthropic.
Isso é relevante. Mas ainda precisamos examinar retenção, compartilhamento, integrações e controles administrativos.
Antes de inserir um contrato ou uma informação de cliente, a equipe precisa saber qual ferramenta está autorizada e quais dados podem ser utilizados nela.
Sem orientação, cada pessoa acaba criando sua própria regra. E o escritório perde a capacidade de acompanhar como suas informações estão sendo tratadas.
O resultado começa no pedido
“Resuma esta reunião.”
Esse comando deixa muita coisa em aberto. O resumo deve registrar todos os assuntos? Destacar decisões? Identificar responsáveis? Preparar uma mensagem ao cliente?
Uma orientação mais útil seria:
A partir desta transcrição, prepare um relatório interno com os assuntos discutidos, as decisões expressamente registradas e as pendências. Indique responsáveis e prazos somente quando constarem do material. Sinalize informações ausentes ou ambíguas e diferencie sugestões de decisões aprovadas.
Perceba a diferença prática.
A equipe estabelece o que precisa receber e oferece critérios para conferir a entrega. Isso reduz a dependência de tentativas sucessivas até aparecer um texto que “pareça bom”.
O raciocínio vale para contratos, relatórios e e-mails. Informar finalidade, contexto, material de referência e formato esperado ajuda a transformar uma solicitação vaga em uma tarefa verificável.
Projetos, skills e agentes precisam de método
Recursos como projetos, instruções reutilizáveis, skills e agentes podem ajudar a organizar atividades recorrentes. A Anthropic apresenta essas diferenças em seu guia sobre skills e outros recursos.
Mas o escritório precisa saber qual procedimento pretende repetir.
Imagine uma análise contratual. Antes de automatizá-la, alguém terá de definir quais cláusulas observar, quais critérios aplicar, quando pedir informações adicionais e quem aprova o resultado.
Uma instrução reutilizável pode incorporar esse procedimento. Um agente pode executar etapas dentro dos acessos e limites concedidos. A revisão continua necessária nos pontos em que houver interpretação, risco ou decisão profissional.
Quanto maior a autonomia concedida à ferramenta, mais importante fica definir esses limites.
Comece por uma tarefa que permita conferir o ganho
Organizar e-mails, preparar um relatório de reunião ou comparar duas versões de um documento são possibilidades para um teste inicial.
Escolha uma atividade frequente, delimite o material e estabeleça o resultado esperado. Depois observe o tempo total, incluindo a revisão.
A ferramenta produziu um rascunho rapidamente, mas exigiu muitas correções? Deixou de registrar uma decisão? Apresentou como fato algo que era apenas uma hipótese? Ajudou a equipe a entregar um trabalho melhor?
Essas respostas valem mais para a contratação do que uma comparação genérica entre marcas.
Também permitem avaliar se faz sentido utilizar as duas soluções. Pode haver tarefas em que a integração do Copilot seja conveniente e outras em que a equipe prefira trabalhar com o Claude.
Essa combinação precisa justificar seu custo, seu treinamento e sua manutenção. Duas assinaturas só fazem sentido quando cada uma tem uma função clara.
E o computador novo?
A infraestrutura merece atenção quando a equipe enfrenta lentidão, travamentos e dificuldade para trabalhar com vários programas.
Mas a compra deve partir de um diagnóstico do uso real. Os textos enviados também levantam esse ponto: é preciso distinguir recursos executados no equipamento daqueles oferecidos pela nuvem.
Antes de renovar as máquinas por causa da IA, vale identificar onde está a limitação e quais aplicações serão utilizadas. Assim, o investimento responde a uma necessidade concreta.
Prompts para testar na rotina do escritório
Escolha uma tarefa que se repete na sua semana. Utilize material fictício ou autorizado para a ferramenta e compare o resultado com a fonte. O tempo de revisão também entra na conta da produtividade.
1. Organizar e-mails por prioridade
Analise os e-mails fornecidos e organize as demandas conforme urgência e importância. Para cada mensagem, indique o assunto, a providência sugerida e o prazo expressamente mencionado. Diferencie prazos informados de estimativas. Quando faltar contexto para definir a prioridade, sinalize a dúvida. Não envie mensagens nem altere a caixa de entrada.
2. Transformar uma reunião em próximos passos
A partir desta transcrição, prepare um relatório com assuntos discutidos, decisões confirmadas e pendências. Registre responsáveis e prazos somente quando estiverem expressos no material. Separe propostas de decisões aprovadas e indique os pontos que precisam de confirmação.
3. Comparar versões de um contrato
Compare as duas versões deste contrato. Apresente uma tabela com a cláusula, o conteúdo anterior, a alteração e seu possível efeito prático. Destaque mudanças em valores, prazos, obrigações, multas, responsabilidade e rescisão. Identifique os trechos que sustentam cada observação e sinalize o que exige análise jurídica.
4. Preparar uma atualização para o cliente
Com base exclusivamente nas informações abaixo, redija uma atualização ao cliente em linguagem clara. Explique o que aconteceu, o efeito prático e os próximos passos registrados. Preserve as incertezas do material. Não acrescente fatos, prazos, promessas de resultado ou providências ainda não definidas. Limite o texto a 200 palavras.
5. Conferir um texto produzido por IA
Compare o rascunho com os documentos de referência. Identifique afirmações sem suporte, divergências de nomes, datas e valores, omissões relevantes e conclusões apresentadas com certeza excessiva. Para cada problema, indique o trecho, a referência correspondente e a correção sugerida. Informe também o que não foi possível verificar.
6. Avaliar Claude e Copilot com uma tarefa real
Vou fornecer uma tarefa recorrente do escritório. Antes de executá-la, identifique quais informações estão faltando. Depois, trabalhe apenas com o material disponível e sinalize as limitações. Ao final, apresente uma lista objetiva dos pontos que precisam de conferência humana.
Tarefa: [descreva]
Material de referência: [insira]
Resultado esperado: [defina]
Critérios de qualidade: [informe]
Aplique o último comando nas duas ferramentas, com o mesmo material. Observe a qualidade, as correções necessárias e o tempo total até a entrega.
O melhor prompt é aquele que deixa claro o trabalho esperado e permite conferir se ele foi bem executado.
A escolha precisa aparecer no trabalho entregue
Claude ou Copilot?
Para responder, escolha uma tarefa do escritório e acompanhe o percurso completo: preparação do material, execução, revisão e entrega.
Verifique se houve redução de esforço, se a qualidade foi preservada e se a equipe conseguiu trabalhar dentro das regras de acesso e confidencialidade estabelecidas.
É aí que a comparação ganha utilidade.
A melhor escolha será aquela que funcionar nas condições reais do escritório e produzir um benefício que possa ser observado. O próximo passo pode ser simples: selecionar uma atividade recorrente, definir quem fará o teste e combinar como o resultado será avaliado.
Antes de contratar mais uma assinatura, vale conseguir responder: qual trabalho ficará melhor com ela?
#ForteAbraço
Gustavo Rocha
Consultoria em Gestão, Tecnologia e Marketing Jurídico
www.gustavorocha.com