A IA foi ao tribunal. E ganhou. Mas, não foi sozinha.

No dia 14 de maio de 2025, uma plataforma de inteligência artificial chamada Garfield AI preparou toda a documentação de um processo judicial no Reino Unido, redigiu quatro depoimentos de testemunhas, respondeu a uma reconvenção da parte contrária e ajudou a cliente a ganhar a causa.

A cliente era Tamires Camal Taquidir, consultora de RH que queria recuperar 7 mil libras de uma dívida. Pagou 400 libras pelo serviço. Sem a IA, provavelmente teria engolido o prejuízo porque os custos de um advogado convencional fariam a conta não fechar nem de perto.

Deu certo. A decisão foi favorável a ela.

Só tem um detalhe que muita manchete está passando por cima: na audiência, quem esteve na sala do tribunal foi um advogado humano, Dominic Li. A IA preparou tudo. O humano foi lá representar a cliente de verdade, na frente do juiz.

Esse detalhe importa. Muito.

O que a IA fez bem aqui

O que a Garfield AI fez é exatamente o tipo de trabalho em que a IA se sai bem. Estruturar documentação, organizar depoimentos, redigir petições com base em fatos apresentados pela cliente, responder formalmente a uma reconvenção. Análise e redação jurídica com base em fatos conhecidos é onde os modelos de linguagem realmente entregam.

Philip Young, co-fundador da plataforma, chamou o resultado de “momento histórico para o acesso à justiça”. Aqui ele acerta num ponto concreto: muita gente desiste de entrar com ação porque o custo do processo supera o valor em disputa. Uma dívida de 7 mil libras com honorários de 3 a 4 mil não compensa matematicamente. Com 400 libras de investimento, a equação mudou.

Isso é um problema real sendo resolvido. Reconheço isso sem nenhum problema.

O risco que a manchete não menciona

No mesmo período em que esse caso virou notícia, o escritório Pinsent Masons, um dos maiores do mundo, com sede em Londres, reportou ao órgão regulador da profissão que havia enganado o tribunal em dois casos por conta de resultados gerados por IA interna.

Não foi má-fé. Foi descuido com o output da máquina.

E isso me incomoda porque é o risco que todo mundo minimiza quando faz a cobertura entusiasmada do tipo “IA vence no tribunal”. Os modelos de linguagem não sabem quando estão errados. Eles geram texto plausível. Plausível não é correto. Em direito, essa diferença pode custar uma causa, uma sanção disciplinar ou a carreira de alguém.

A própria IA não entra na sala. Ela prepara o dossiê. Quem olha o juiz nos olhos, percebe que um argumento está caindo mal e muda o rumo do discurso em tempo real é o Dominic Li. Um ser humano com formação, julgamento e registro profissional.

O que muda para os advogados brasileiros

No Brasil a situação é diferente em pontos importantes. A representação processual por advogado é constitucionalmente exigida. Uma plataforma que substituísse o advogado na audiência seria vedada por lei, não por praxe ou boa educação.

Mas o modelo que a Garfield usou já existe aqui, de forma mais silenciosa. Escritórios que usam Claude para redigir peças, organizar argumentos e fazer pesquisa jurisprudencial estão fazendo a mesma coisa: IA no trabalho preparatório, humano na responsabilidade final.

A velocidade e o custo mudam. A responsabilidade fica onde sempre esteve.

E o advogado que não aprender a trabalhar com essas ferramentas vai ser substituído. Não pela IA. Pelo colega que aprendeu a usar a IA e agora entrega mais em menos tempo, a um custo menor para o cliente.

O que eu vejo de verdade acontecendo

Trabalho com tecnologia jurídica há quase 30 anos. Já vi muitas ondas sendo anunciadas como o fim da advocacia. Nenhuma acabou com a profissão. O que acontece é que o perfil do trabalho muda, e quem não percebe a tempo paga o preço depois.

A IA vai tornar o acesso à justiça mais barato para casos simples. Vai liberar advogados de trabalho mecânico para se dedicar ao que exige julgamento humano. E vai criar pressão sobre quem cobra honorários altos para fazer trabalho que um software faz por uma fração disso. Isso vai doer em alguns bolsos, incluindo os de quem ainda não acredita que isso é sério.

O caso da Tamires não prova que a IA substituiu o advogado. Prova que a IA pode tornar viável um processo que antes era economicamente inviável. E que, na hora final, ainda precisou de um humano para cruzar a porta do tribunal.

Por enquanto.


Fonte: CNN Brasil / The Guardian, 23/06/2026


Gustavo Rocha

Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico

Especialista em Inteligência Artificial aplicada ao Direito e em Privacidade

Professor de Pós-Graduação e coordenador de grupos de estudos na ESA/RS

Membro de comissões da OAB/RS e OAB/SP

Site: http://www.gustavorocha.com | E-mail: gustavo@gustavorocha.com

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