Olá, pessoal! 👋 Aqui é o Gustavo Rocha!
Em 2018, escrevi um artigo explicando o que era ser “data driven”. O conceito era simples: escritórios e departamentos jurídicos precisavam parar de decidir pelo instinto e começar a usar os dados que já tinham dentro de casa. Parecia óbvio. Mas quando eu olhava para a realidade dos escritórios que atendia, via dashboards vazios, sistemas cheios de dados mal lançados e aquela cultura do “a gente sempre fez assim”.
Passamos para 2026. O assunto voltou com força, só que agora com um ingrediente diferente na receita: a Inteligência Artificial. O que parecia complicado antes ficou mais acessível e mais urgente ao mesmo tempo.
Ser data driven nunca foi sobre software
Esse ponto precisa ficar claro logo de cara, porque o mercado vive confundindo as duas coisas. Ser data driven sempre foi sobre ter os dados certos, bem lançados e disponíveis na hora da decisão. O software era só o recipiente.
O que a IA mudou foi a velocidade com que esses dados viram respostas concretas. Antes, você coletava, gerava um relatório, levava para uma reunião e, com sorte, tomava uma decisão algumas semanas depois. Hoje, se os dados estiverem estruturados, você consegue perguntar diretamente para uma IA: “qual o prazo médio de encerramento dos nossos processos trabalhistas nos últimos seis meses?” e ter a resposta em segundos. Sem analista de BI, sem planilha gigante. Precisa de dado limpo e de uma IA configurada com cuidado.
Mas aí vem o porém.
A IA não conserta dado bagunçado
Esse é o erro que mais vejo agora. O gestor contrata uma solução de IA, conecta ao sistema jurídico do escritório e espera que a mágica aconteça. A IA até funciona. Só que os dados de dentro do sistema estão uma bagunça: tipos de ação lançados de forma inconsistente, valores sem padrão, clientes duplicados, prazos registrados no campo errado.
O resultado é análise com aparência de certeza, mas baseada em informação errada. Isso é pior do que não ter análise nenhuma.
Em um escritório previdenciário que acompanho, passamos algumas semanas antes de ligar qualquer ferramenta de IA fazendo exatamente isso: arrumando a casa. Padronizando lançamento de tarefas, definindo campos obrigatórios no sistema, treinando a equipe para registrar as informações do jeito certo. Só depois disso a IA passou a gerar análises confiáveis, produtividade por advogado, taxa de êxito por tipo de benefício, volume de trabalho por período. Coisas que antes eram achismo viraram número real.
O que muda quando a IA entra com os dados certos
A diferença mais concreta para quem já tem os dados organizados é que você para de gerar relatórios e começa a ter conversas com as suas informações.
Pense em um departamento jurídico com 300 contratos ativos. Antes, saber quais estavam próximos do vencimento dependia de alguém entrar no sistema, filtrar, exportar para planilha e mandar e-mail. Com IA alimentada pelos dados corretos, o sistema avisa automaticamente, classifica por risco e ainda gera um rascunho do aviso para o fornecedor. O advogado responsável não precisa caçar a informação. Ela aparece.
Em escritórios com carteiras grandes de ações trabalhistas, a IA consegue cruzar histórico de acordos por vara, por tipo de pedido e por perfil de réu, e sugerir faixas de negociação mais realistas. Jurimetria aplicada no dia a dia, sem precisar de um especialista em dados na equipe.
Na área comercial, os dados de quais conteúdos geraram mais consultas, quais clientes vieram de qual canal e qual foi o tempo médio entre o primeiro contato e a contratação, tudo isso passa a orientar onde o escritório deve investir esforço de captação. O que antes ficava perdido em uma planilha que ninguém atualizava começa a ter serventia real.
A tecnologia evoluiu. A cultura, nem sempre
A IA chegou. Os sistemas melhoraram. E ainda assim, muitos escritórios continuam decidindo na base do “eu acho” e do “sempre foi assim”.
O problema, nesse ponto, não é mais técnico. É de mentalidade. Gestores que não confiam em números. Sócios que não querem ver relatórios. Equipes que lançam os dados de qualquer jeito porque nunca sentiram consequência disso.
Ser data driven com IA começa nas perguntas que o gestor faz na reunião de segunda. Quando o sócio começa a perguntar “o que os dados mostram?” antes de decidir sobre abrir uma nova área, contratar alguém ou ajustar a tabela de honorários, aí sim o escritório está funcionando de verdade nessa direção. A IA é o motor. A cultura é o que faz o motor pegar.
Por onde começar sem virar tudo de cabeça para baixo
Sem drama e sem grande projeto de transformação digital, existe um caminho prático.
Primeiro, entenda o que você já tem. Olhe para o seu software jurídico e pergunte: o que está sendo registrado? Está sendo registrado de forma padronizada? Quem registra sabe por que está registrando?
Segundo, defina duas ou três perguntas de gestão que você quer responder com dados. “Qual o meu prazo médio de resposta a novos clientes?” “Quais tipos de processo têm mais êxito no meu escritório?” “Qual o custo médio de uma ação até o encerramento?” Essas perguntas orientam o que precisa ser estruturado antes de qualquer coisa.
Terceiro, aí você pensa em qual IA pode ajudar. Não antes.
A ordem importa: gestão, pessoas, tecnologia. Escrevi isso em 2018. Continua valendo. A IA só mudou a velocidade do terceiro passo.
Gustavo Rocha é consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico, professor de pós-graduação e referência em implementação de IA para escritórios de advocacia e departamentos jurídicos. Saiba mais em gustavorocha.com