Semana passada ministrei a aula inaugural do curso de pós-graduação e mestrado em Inteligência Artificial da Universidade AGTU. O tema que escolhi não foi o mais glamouroso do mundo: foi sobre como se comunicar bem com IA.
Parece básico, mas é exatamente o que mais trava as pessoas na prática. Alunos de pós e mestrado, advogados experientes, gestores que já ouviram falar de IA dezenas de vezes, todos tropeçam no mesmo ponto: acham que a ferramenta vai entender o que eles querem sem precisar explicar direito.
A maioria dos profissionais do jurídico que começa a usar IA faz sempre a mesma coisa: abre o ChatGPT, digita um pedido meio vago, e espera que a mágica aconteça. Quando o resultado não presta, a conclusão imediata é “essa IA não serve pra nada”. Acontece que o problema quase nunca é a ferramenta.
O erro que todo mundo comete logo de cara
Existe uma crença muito comum de que basta escrever “você é um advogado especialista sênior com 20 anos de experiência” e a IA vai se transformar nisso. Não vai. A IA não lê instrução como um ser humano lê. Ela processa padrões de texto, e quando o padrão que você forneceu é vago, a resposta vai ser vaga também.
O ponto que mais repito em aula é este: linguagem natural em conversa aberta funciona até um certo nível. A partir do momento em que você quer resultados mais estruturados e previsíveis, você precisa de formas mais organizadas de comunicação. É aí que o Markdown entra.
Usar cabeçalhos, listas e delimitadores de seção no seu prompt já muda bastante o resultado. Não tem nenhum segredo aqui, é simplesmente dar mais contexto e estrutura para que a IA entenda o que você realmente quer.
Exemplo prático: em vez de pedir “escreva sobre os direitos do vigilante”, tente “discorra sobre os direitos do vigilante, organizando em: (1) jornada de trabalho, (2) adicional noturno, (3) equipamentos obrigatórios pelo empregador”. A diferença na resposta é enorme.
Qual IA usar? Uma de cada vez
No vídeo, cito as principais ferramentas disponíveis hoje: ChatGPT, Claude, Gemini e Copilot. Cada uma tem suas características, pontos fortes e limitações. Mas tem um conselho que dou sempre: escolha uma e se aprofunde nela, em vez de usar um pouco de cada sem dominar nenhuma direito.
Profissional que usa três IAs de forma superficial não tem vantagem real sobre quem domina uma só com profundidade. O conhecimento de como formular bons prompts, entender as limitações da ferramenta, saber como ela responde a diferentes tipos de instrução… isso só vem com uso consistente ao longo do tempo.
O problema do conteúdo detectável
Um ponto que gera curiosidade quando apresento em eventos: a IA deixa rastros no texto que podem ser identificados. Ferramentas de detecção de conteúdo gerado por IA já existem e estão sendo usadas em contextos profissionais e acadêmicos.
Por isso, quando falo em usar IA para escrever, a orientação nunca é “peça pra IA escrever e copie o resultado”. A abordagem mais eficaz é usar a IA como ferramenta de raciocínio: pedir para ela estruturar ideias, levantar argumentos, organizar tópicos. Você escreve a partir disso. Fica melhor, fica com a sua voz, e o risco de detecção desaparece.
Versão gratuita ou versão profissional?
Esse é um ponto que não abro mão de mencionar: eu uso apenas versões profissionais e licenciadas das ferramentas. Gemini Pro, Claude Pro Max, ChatGPT Business.
As versões gratuitas têm limitações de uso e, em geral, utilizam o seu conteúdo para treinar os modelos. Para quem trabalha com documentos de clientes, isso representa um risco sério de privacidade e confidencialidade. As versões pagas têm políticas diferentes nesse ponto e entregam respostas mais completas e estáveis.
Se você está usando IA no seu escritório ou departamento jurídico, esse detalhe precisa constar na sua política interna de segurança da informação. Não é opcional.
IA não é difícil. Mas também não cai do céu pronta. Ela exige que você aprenda a se comunicar de um jeito diferente do que está acostumado, que escolha uma ferramenta e vá fundo nela. Quem faz isso sai na frente, não porque usa IA, mas porque aprendeu a usar IA de verdade.
Se quiser se aprofundar, o vídeo completo está no YouTube:
Se nao abrir, acesse https://www.youtube.com/watch?v=LCXu3W5hwAw
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Gustavo Rocha
Consultor em gestão, tecnologia e marketing jurídico
Especialista em Inteligência Artificial aplicada ao Direito e em Privacidade
Professor de Pós-Graduação e coordenador de grupos de estudos na ESA/RS
Membro de comissões da OAB/RS e OAB/SP
Site: http://www.gustavorocha.com | E-mail: gustavo@gustavorocha.com
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