Pensamento de final de semana: Clic!

CLIC

Daletra

Nasci em uma cidade pequena. De cotidiano pequeno. Uma dentre aquelas que não aparecem na TV a não ser no infortúnio. Onde galos dobravam, as casas tinham quintas, lençóis cheiravam a sol e o futuro das pessoas… bem… o futuro das pessoas  era predito: “- Quando crescer vai ser isto.” E comumente era ou era parecido ou alguém mudava de cidade e se perdia pelo mundo mambembe, quem sabe em um circo que pousava aqui e ali! A cidade da minha infância é uma cidade distante de tudo – como o é o circo da minha infância.

Lembro do rádio e lembro que rádio, naquela época, era mais ou menos o que o computador é para os meus netos: Uma grande descoberta, a maior necessidade, a tela por onde se via o mundo. Confesso, adorava a grande tela que não era a do cinema, mas a tela imaginária que tinha toda e qualquer rádio, onde se via aquilo que não se via no mundo e o que se via no mundo, não ia além daquilo que alcançava a vista ou do mundo que era predito: “Quando crescer vai ser isto”.

Um homem tem que ser do tamanho dos seus sonhos…

…Nunca quis entrar dentro do rádio. Daquela caixa de onde saía uma voz com anúncios de dentifrício e de refrigerante tubaína. Nem quis conhecer a cantora da voz de ouro. Sei, também, que os melhores lances de todas as partidas de futebol, nunca aconteceram, senão na voz dos locutores que falavam na caixa que tinha voz e que em meio a ruídos e estalos, assustava um sabiá dormindo no fundo do sítio, mas anunciava tempestade e esta foi a primeira forma de previsão do tempo, a não ser a do cheiro de chuva que corria de dentro da mata entrando pelas narinas dos velhos…

…mas eu nunca quis entrar no rádio. Um homem tem que ser do tamanho dos seus sonhos. Sabe?!…

(…)

Aprendi a ler até o terceiro ano da escola. Escrever não sei direito, a não ser o que sei hoje apesar de ler bastante, mas o pouco que eu escrevia, já era muito para naquela época tirar diploma na cidade. É! Na cidade! Saí do sítio, contrariando o que “era pra ser isto” e fui morar na cidade. Sempre tive braço forte, hoje já estão cansados, mas eles me deram diploma pra trabalhar no madeirame que vinha nos navios do porto.  Com um pouco mais de força nos braços e cansando a vista, entrei para o sindicato…

…Entrei para o sindicato, daqueles sindicatos que havia antigamente onde os homens tinham muita força nos braços e os sindicatos tinham muita força nas mãos.

(…)

Quando comecei a trabalhar continuei a andar com a bota do sindicato que já era grande coisa, pois sempre andei de chinelas. Não comprei sapato, economizei e comprei um rádio e foi antes de me casar, porque sapato eu comprei só quando fui me casar.

Bom…Eu não tinha sapato, era o mais o mais novo do sindicato, sabia ler alguma coisa e tinha um rádio. Eu nem sabia que era, mas eu era um sujeito diferente, mais ainda se soubessem que eu sempre acreditei que um homem tem que ser do tamanho dos seus sonhos, mas eu nunca quis entrar no rádio, mas sair do alto falante…

Sim, sair de dentro do alto falante…

(…)

Foi dia 1ª de maio. O sindicato comprou uma Kombi e uma Kombi com alto falante. “- Isto é um conquista da classe trabalhadora e do nosso sindicato….” Foi o que disse o presidente saindo do alto falante. Eu já tinha visto, na festa da padroeira, o padre rezando a missa saindo do alto falante, mas eu nunca gostei de padre, porque padre só dizia que a gente que era do sítio, tinha o tamanho de um sítio e não tinha tamanho de sonho, mas tenho o maior respeito por Deus e por todos os santos… Eu não tinha reparado que sair do alto falante era entrar dentro do rádio.

(…)

Falei aqui, falei lá, corri pra cima e pra baixo, fiz amizade com um, depois amizade com outro, fiz até inimizade…Melhor! Fizeram ela comigo. Tudo pra sair do alto falante, pois a Kombi serviria, como de fato serviu, para andar rodando os bairros, falando pra todos os braços que eram do sindicato as noticias do trabalho. “A cada um conforme o seu trabalho”  – findava a locução e depois estacionava no porto. Foi bem ai, nesta época… foi nesta época que me chamaram para a diretoria.

(…)

Eu sabia escrever o que os outros não sabiam, falava com quem eu podia pra conseguir o que eu queria, não tinha parente polícia, não gostava de padre e saia do alto falante. Acharam assim que eu era alguém que poderia vir a ser alguma coisa no sindicato, além de secretário. “A cada um conforme o seu trabalho…” O presidente sempre repetia ao final das reuniões e tinha que ir para a ata. Se um dia eu quisesse não sair mais do alto falante, pra falar naquela mesa, eu iria fazer questão de dizer “A cada um conforme o seu sonho…” porque dar trabalho pra alguém, só mata a fome do sujeito, se você der um sonho, o sujeito não vai morrer de fome nunca. Eu achava isto, mas eu só estava ali por conta de rádio e de alto falante e já sabia também, que os homens não são do tamanho do sonho. Os homens são pequenos e eu era diferente, porque eu saia do alto falante. Eu já tinha tamanho de homem e não me interessava nem um pouco com alguém viajando para um país onde as cortinas fossem de ferro.

(…)

Foi dia 1º de abril a revolução. Ninguém sabe, mas mudaram a data porque dia 1º de abril é o dia da mentira. Uma Kombi parou na frente de casa, com um ou outro colega e o médico do sindicato, mas a Kombi não era a do sindicato. Nem o jipe era do sindicato. O homem no fundo do quintal com um fuzil, também não era do sindicato. Eu já era casado e tinha família. Peguei uma muda de roupa, um monte de vergonha da vizinhança e não fui trabalhar no porto naquela noite. Fui viajar…

(…)

Onde é que eu estava mesmo?… Ah!… Fui pra capital e fui interrogado e já foram perguntando se eu conhecia alguém e eu conhecia todo mundo. Perguntaram se eu ia na missa, eu disse: “- Respeito a todos os santos”. Perguntaram, também, porque eu saía do alto falante da Kombi, eu disse: “- Eu tenho um sonho”. …Perguntaram se eu era comunista e não esperaram resposta, mas eu disse: “- Eu só trabalho no porto”. E isto não convenceu e eu fiquei no quartel.

(…)

Fiquei um tempo e fiz amizade. Os colegas do sindicato foram embora, mas eu era diferente, como o médico era diferente, o advogado era diferente, o doutor juiz desembargador era diferente e até um moleque que foi governador do estado, era diferente, como todos os outros diferentes que dormiam amontoados no chão. Por sermos todos diferentes, ficamos presos e eu comecei a sentir medo de não voltar nunca mais. Medo, o tive, mas tive mais sorte…

(…)

Tive sorte e fui saber disto depois…

Colegas nunca voltaram, como se tivessem sumido com o circo da infância. Outros, apanharam muito pra inventar coisas e chamam isto de tortura – isto é pior que tortura. Mulheres sofreram e as famílias com elas. Isto aconteceu até que todos ficaram calados dentro da cidade, inclusive eu – a Kombi deixou de existir.

Passei a sentir temor que é um medo irracional. Deixei até de ouvir rádio. E talvez todo o temor, não fosse pelo fato de que naquela época poderia alguém citar o meu nome na capital e a Kombi parar na frente de casa. O temor era outro, eu era diferente.

O temor maior era de ter um sonho, porque quem tem um sonho tem liberdade e naquela época ninguém podia ser livre. Tudo era proibido, era reprimido, não se podia inventar nada, nem a própria vida, muito menos ainda a vida dos outros a não ser alguns, que inventaram o medo na vida dos outros!

Não era dado a cada homem ter o seu próprio tamanho, mas isto não dava tristeza. Triste é hoje, não saberem de tudo isto. Que se pode transformar o mundo a sua volta com uma boa idéia. Eu entrei dentro do rádio e nem precisei ser comunista. Depois eu….

“clic”

– Só um minuto. Vou falar pro senhor uma coisa e me perdoe a sinceridade, mas esta historia que o senhor tá contando, é uma estória estúpida e eu não estou chamando o senhor de estúpido. Foi uma estupidez muito grande o que aconteceu… e eu já ouvi bastante esta estória…as pessoas já ouviram bastante estupidez… não sei se vão se interessar por esta estória…eu queria alguma coisa que tivesse um pouco de humor…sabe?! Estes “causos”… me falaram que o senhor tem uns “causos” pra contar…

–  Causos?!… Eu até sei um ou outro. Tem uma história de circo…

– Estória de circo, é boa…Vamo lá…Deixa eu trocar a fita….Pode falar..

“clic”

– Bem, quando eu morava no sítio, papai trouxe a gente pra festa da padroeira. Tinha um circo na festa e eu fugi com o circo porque eu queria ser mágico…

– fim –

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